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O Apogeu do Império e o Rei Café
(1850 – 1870)
Café: base econômica do Segundo Reinado.
A superação da crise regencial, a reorientação centralista e conservadora e a
conseqüente estabilidade do Império a partir de 1850 encontram-se intimamente
relacionadas à economia cafeeira. Como vimos, a estrutura econômica e social do Brasil não havia sido alterada com a emancipação política e continuava, em essência, tão colonial e escravista quanto fora durante o período colonial. Estruturada para a monocultura, a economia colonial e escravista no Brasil prosperou quando produziu uma mercadoria de grande aceitação no mercado europeu e, também, quando não era ameaçada pela concorrência. Assim aconteceu com o açúcar no passado e agora com o café, em meados do século XIX.
Desenvolvendo-se principalmente no sudeste (Rio, Minas e São
Paulo), a cafeicultura forneceu uma sólida base econômica para o domínio dos
grandes proprietários daquela região e favoreceu, enfim, a definitiva
consolidação do Estado nacional. Origem do café.
A produção e o consumo do café tiveram origem entre os árabes, e esse produto
era conhecido pelos europeus desde o século XVI. Seu consumo no Ocidente começou
em Veneza, em meados do século XVII, difundindo-se rapidamente. A demanda do
novo produto, daí em diante, só aumentou. Já no século XVIII sua produção tinha
atingido as Antilhas e, no seguinte, o Brasil, onde em pouco tempo superou todas
as culturas tradicionais. Os investimentos
iniciais. Tornando-se um novo e principal
produto de exportação a partir do século XIX, o café ocupou, de início, regiões
vizinhas da capital brasileira. - o Rio de Janeiro. Ali encontrou uma
infra-estrutura já montada, reaproveitando a mão-de-obra escrava disponível em
virtude da desagregação da economia mineira. Além disso, favoreceram enormemente
a nova cultura. A abundância de animais de transporte (mulas) e a proximidade do
porto, que facilitava o seu escoamento para o exterior. Portanto, sem grandes
dificuldades, com os próprios recursos existentes e disponíveis, deu-se o
impulso inicial à economia cafeeira. Comparação com a
economia açucareira. O café não requeria
grandes e vultosos investimentos, como a montagem do engenho. Eram necessários:
tanques para a lavagem do grão depois da colheita, terreiro onde espalhar e
secar o café e máquinas de decorticação, triagem, etc., que eram mais simples e
de fabricação local. Portanto, nos seus primórdios, a cultura cafeeira
baseava-se na utilização do fator terra e dependia do movimento da mão-de-obra.
Como o cafezal é uma cultura perene, o crescimento da economia cafeeira
dependia quase que exclusivamente do suprimento de escravos.
Outro aspecto diferenciava ainda a economia açucareira da
cafeeira. Pelo fato de encontrar-se em plena vigência do regime colonial, a
economia açucareira, desde a sua origem, caracterizou-se pelo divórcio entre as
etapas da produção e da comercialização, sendo todas as decisões tomadas na
última etapa - o comércio.
Dessa maneira, eram os comerciantes que se apropriavam da
parte maior, permanecendo os senhores de engenho como seus sócios menores. Na
economia cafeeira, a importância do comerciante continuou enorme e decisiva, mas
o fato de ter se constituído nos quadros de um país politicamente emancipado deu
ao produtor um espaço maior de liberdade e atuação. Segundo as palavras do
economista Celso Furtado, “desde o começo, sua vanguarda [os cafeicultores]
esteve formada por homens com experiência comercial. Em toda a etapa de
gestação, os interesses da produção e do comércio estiveram entrelaçados. A nova
classe dirigente formou-se numa luta que se estende em uma frente ampla:
aquisição de terras, recrutamento de mão-de-obra, organização e direção da
produção, transporte interno, comercialização nos portos, contatos oficiais,
interferência na política econômica e financeira”.
A expansão cafeeira
– Na primeira década do século XIX, a cultura cafeeira já havia atingido o Rio
de janeiro, começando pelo litoral - Angra dos Reis e Parati -, em direção a São
Paulo: Reis Caraguatatuba. Porém, foi no vale do Paraíba que o café prosperou. O vale do Paraíba.
A fixação do café no vale do Paraíba deveu-se às condições geográficas
excepcionais: clima adequado, regularidade das chuvas, etc.
De 1830 a 1880, aproximadamente, toda a energia econômica
voltou-se para o cultivo do café, que então era vendido, sem concorrência, ao
mercado europeu em expansão. Tornou-se, por isso, o estabilizador da economia do
Império, a ponto de se dizer, na época, que "o Brasil é o vale".
Entretanto, a economia cafeeira não alterou os quadros
sociais herdados do passado colonial. Ao contrário, ela fortaleceu a escravidão,
a grande propriedade, a monocultura e a produção voltada para o mercado externo.
Como no passado, a cafeicultura caracterizouse por ser uma cultura extensiva e
predatória. Em conseqüência disso, o solo esgotou-se rapidamente no vale do
Paraíba e a cultura cafeeira ali entrou em declínio. O Oeste Paulista
– A estagnação e decadência do vale do Paraíba não significou, contudo, a
decadência da cafeicultura, que encontrou no Oeste paulista um novo alento. Seu
núcleo inicial foi Campinas (Oeste velho), difundindo-se para Moji-Guaçu e
chegando à região de Ribeirão Preto (Oeste novo) por volta de 1880. Em seguida,
a cultura se expandiu para o extremo Oeste paulista e atingiu o Paraná já no
início deste século. Diferenças entre o
vale do Paraíba e o Oeste paulista. Em
termos topográficos havia diferenças significativas entre o vale e o Oeste
paulista. Devido ao terreno acidentado, o plantio do café no vale do Paraíba era
descontínuo, realizado nas encostas dos montes. Já no Oeste paulista, o plantio
ocupava ininterruptamente vários quilômetros quadrados de solo excepcionalmente
fértil: a terra roxa, oriunda da decomposição das rochas vulcânicas. Assim,
embora o sistema de cultivo fosse o mesmo, a regularidade do relevo favorecia a
melhor conservação do solo no Oeste paulista, assegurando por mais tempo a
qualidade do café. A isso deve-se acrescentar que o escoamento do produto era
beneficiado por um custo menor, graças às redes viárias disponíveis.
O deslocamento do café para o Oeste paulista valorizou o
porto de Santos; com a expansão do café para o interior, a partir de Campinas,
tornou-se necessário solucionar a questão do transporte até o porto de Santos.
De início, utilizou-se o transporte animal. Porém, à medida
que as distâncias aumentaram e o volume da safra se multiplicou, por iniciativa
dos próprios cafeicultores as estradas de ferro foram sendo construídas: a São
Paulo Railway, ligando Santos a Jundiaí (1868); a Ituana, ligando Itu a Campinas
(1873); a Mogiana e a Sorocabana, que começaram a ser construídas em 1875. A Modernização A dinamização da
economia. Com o desenvolvimento da
cafeicultura um novo equilíbrio foi estabelecido. Desde 1860, os superávits
tornaram-se constantes nas relações comerciais com o exterior, ajustando
novamente a economia brasileira ao mercado internacional. Em sua relação com o exterior, a tarifa Alves Branco (1844) representou uma mudança significativa, ao elevar os direitos alfandegários de 15% para 30%. Internamente, para o Estado, isso representou melhoria da arrecadação. A abolição do tráfico (1850), por sua vez, liberou capitais que foram redirecionados para a aplicação no mercado interno.
Assim, em contraste com o período anterior da Regência,
bastante conturbado, teve início no Brasil uma nova era de relativa
prosperidade. "Pode-se dizer", afirma o historiador Caio Prado Jr. , "que é
nesta época que o Brasil tomará pela primeira vez conhecimento do que fosse o
progresso moderno e uma certa riqueza e bem-estar material.”
A reunião de fatores favoráveis - tarifa Alves Branco,
abolição do tráfico e ascensão do café - estimulou uma onda de empreendimentos
urbanos: “fundaram se”, afirma o historiador Nelson Werneck Sodré, “62 empresas
industriais, 14 bancos, 3 caixas econômicas, 20 companhias de navegação a vapor,
23 de seguros, 4 de colonização, 8 de mineração, 3 de transportes urbanos, 2 de
gás, 8 estradas de ferro”.
Nesse surto de empreendimentos, destacouse, quase como
símbolo desse tempo, Irineu Evangelista de Sousa, barão de Mauá, pela ousadia
de sua atuação. Como empresário, investiu nos mais variados setores da economia
urbana: produção de navios a vapor, estradas de ferro, comunicações
telegráficas, bancos, etc. Apesar de ter iniciado a sua atividade comercial já na década de 1830, e ter criado o primeiro estaleiro da América do Sul por volta de 1846, a maioria de seus empreendimentos de grande envergadura concentraram-se na década de 1850. Porém, esses empreendimentos não tiveram continuidade e já se encontravam seriamente ameaçados em 1864, data em que ocorreu uma grave crise bancária. Finalmente Mauá faliu em 1873.
Imigrantes para o Café: Café e Sociedade em São Paulo THOMAS H. HOLLOWAY Bibliografia: História do Brasil - Luiz Koshiba - Editora Atual História do Brasil - Bóris Fausto - EDUSP |
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