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| Revolução Industrial
A substituição das ferramentas pelas máquinas, da energia
humana pela energia motriz e do modo de produção doméstico pelo sistema fabril
constituiu a Revolução Industrial; revolução, em função do enorme impacto sobre
a estrutura da sociedade, num processo de transformação acompanhado por notável
evolução tecnológica.
A Revolução
Industrial aconteceu na Inglaterra na segunda metade do século XVIII e encerrou
a transição entre feudalismo e capitalismo, a fase de acumulação primitiva de
capitais e de preponderância do capital mercantil sobre a produção. Completou
ainda o movimento da revolução burguesa iniciada na Inglaterra no século XVII. Etapas da industrialização
Tradicionalmente distinguem-se três períodos no processo de
industrialização em escala mundial:
1900 até hoje – Surgem conglomerados industriais e multinacionais. A produção se automatiza; surge a produção em série; e explode a sociedade de consumo de massas, com a expansão dos meios de comunicação. Avançam a indústria química e eletrônica, a engenharia genética, a robótica. Com as transformações ocorridas na virada do século XX para o XXI, contudo, somos obrigados a acrescentar uma nova etapa, na qual o Capitalismo de Cassino dificulta o processo de industrialização por um lado e, por outro, reforça-o através da maior concentração de rendas de todo o período capitalista mundial.
Artesanato, manufatura e maquinofatura
O artesanato, primeira forma de produção industrial, surgiu
em fins da Idade Média com o renascimento comercial e urbano e definia-se pela
produção independente; o produtor possuía os meios de produção: instalações,
ferramentas e matéria-prima. Em casa, sozinho ou com a família, o artesão
realizava todas as etapas da produção.
A manufatura resultou da ampliação do consumo, que levou o
artesão a aumentar a produção e o comerciante a dedicar-se à produção
industrial. O manufatureiro distribuía a matéria-prima e o artesão trabalhava
em casa, recebendo pagamento combinado. Esse comerciante passou a produzir.
Primeiro, contratou artesãos para dar acabamento aos tecidos; depois, tingir; e
tecer; e finalmente fiar. Surgiram fábricas, com assalariados, sem controle
sobre o produto de seu trabalho. A produtividade aumentou por causa da divisão
social, isto é, cada trabalhador realizava uma etapa da produção. Na maquinofatura, o trabalhador estava submetido ao regime de funcionamento da máquina e à gerência direta do empresário. Foi nesta etapa que se consolidou a Revolução Industrial. Em outras palavras, o capitalismo, que surge como um câncer entre os mercadores da baixa (final) Idade Média, atinge o seu apogeu com a consolidação da chamada Revolução Industrial que, desde então, é o modelo Fáustico que nos leva a, vertiginosamente, produzir máquinas idealmente cada vez melhores e produzir cada vez mais máquinas, sofisticadas e descartáveis para que o consumidor seja obrigado a descartar o velho produto e adquirir o mais recente em velocidade cada vez maior. Há estudos em curso acerca desta face DESTRUTIVA que o chamado progresso nos traz: o ser humano existe na face da Terra há cerca de 200.000 anos. Somente há pouco mais de 150 anos ingressamos no que Marshal Berman chama de "A Vertigem da Modernidade"
O pioneirismo inglês
Quatro elementos essenciais concorreram para a industrialização: capital, recursos naturais, mercado, transformação agrária, vamos ver isso de perto:
Na base do processo, está a Revolução Inglesa do século XVII.
Depois de vencer a monarquia, a burguesia conquistou os mercados mundiais e
transformou a estrutura agrária. Os ingleses avançaram sobre esses mercados por
meios pacíficos ou militares. A hegemonia naval lhes dava o controle dos mares.
Era o mercado que comandava o ritmo da produção, ao contrário do que aconteceria
depois, nos países já industrializados, quando a produção criaria seu próprio
mercado.
Além da riqueza amealhada através de saques aos povos
nativos do Continente Americano, aos Africanso e Hindus, até a segunda metade do século XVIII, a grande indústria
inglesa era a tecelagem de lã. Mas a primeira a mecanizar-se foi a do algodão,
feito com matéria-prima colonial (Estados Unidos, Índia e Brasil). Tecido leve,
ajustava-se aos mercados tropicais; 90% da produção ia para o exterior e isto
representava metade de toda a exportação inglesa, portanto é possível perceber o
papel determinante do mercado externo, principalmente colonial, como secundo
fator preponderante na arrancada
industrial da Inglaterra. As colônias "contribuíam" com matéria-prima, capitais e
consumo.
Os capitais também vinham do tráfico de escravos e do
comércio com metrópoles colonialistas, como Portugal. Provavelmente, metade do
ouro brasileiro acabou no Banco da Inglaterra e financiou estradas, portos,
canais. A disponibilidade de capital, associada a um sistema bancário eficiente,
com mais de quatrocentos bancos em 1790, explica a baixa taxa de juros da época; isto é,
havia dinheiro barato para os empresários. Depois de capital, recursos naturais e mercado, vamos ao quarto elemento essencial à industrialização, a transformação na estrutura agrária após a Revolução Inglesa. Com a gentry no poder, dispararam os cercamentos, autorizados pelo Parlamento. A divisão das terras coletivas beneficiou os grandes proprietários. As terras dos camponeses, os yeomen, foram reunidas num só lugar e eram tão poucas que não lhes garantiam a sobrevivência: eles se transformaram em proletários rurais; deixaram de ser ao mesmo tempo agricultores e artesãos, ou seja, com o roubo das terras camponesas perpetrado pelo governo britânico com a força da Legislação e da Polícia, não restou alternativa ao camponês exceto submeter-se às baixíssimas condições de vida ao redor das indústrias britânicas. Friedriech Engels elaborou um estudo detalhadíssimo sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra em função dos fatos narrados neste parágrafo. Um Clássico indispensável a quem deseja aprofundar-se no assunto:
Duas conseqüências se destacam: 1) diminuiu a oferta de
trabalhadores na indústria doméstica rural, no momento em que o mercado ganhava impulso, tornando-se indispensável adotar nova forma de produção capaz de
satisfazê-lo; 2) a proletarização abriu espaço para o investimento de capital na
agricultura, do que resultaram a especialização da produção, o avanço técnico e
o crescimento da produtividade de produtos agrícolas mais voltados a atender ao
consumismo crescente. Quando possível, pois a Revolução Industrial se, por um
lado, trouxe avanços técnicos na produção de bens cada vez mais sofisticados,
por outro tornou cada vez mais difícil a vida cotidiana de pessoas que viviam do
próprio trabalho, seja no campo, seja nas cidades. Ainda assim, população cresceu e o mercado consumidor também; a sobra de mão-de-obra para os centros industriais fez com que o preço da carne humana, digo, da força de trabalho humana, na forma de salários, fosse cada vez mais aviltada. Um problema que vem se agravando espantosamente ao longo do último século e meio, com ênfase para a decadência brutal da Era do Capitalismo de Cassino do Século XX.
Mecanização da Produção
As invenções não resultam de atos individuais ou do acaso,
mas de problemas concretos colocados por e para homens práticos. O invento atende à
necessidade social de um momento; do contrário, nasce morto. Leonardo Da Vinci,
por exemplo, inventou (antes mesmo que inventassemum processo chamado de "patente") a
máquina a vapor, o submarino, o helicóptero e várias outras "geringonças", como
eram chamadas no século XVI, obras que encontraram meios de viabilização no século XVIII.
Para alguns historiadores, a Revolução Industrial começa em
1733 com a invenção da lançadeira volante ("flying shuttle", por John Kay. O instrumento, adaptado
aos teares manuais, aumentou a capacidade de tecer; até ali, o tecelão só podia
fazer um tecido da largura de seus braços. A invenção provocou desequilíbrio,
pois começaram a faltar fios, produzidos na roca. Em 1767, James Hargreaves
inventou a spinning jenny, que permitia ao artesão fiar de uma só vez até
oitenta fios, mas eram finos e quebradiços. A water frame de Richard Arkwright,
movida a água, era econômica mas produzia fios grossos. Em 1779, S Samuel
Crompton combinou as duas máquinas numa só, a mule, conseguindo fios finos e
resistentes. Mas agora sobravam fios, desequilíbrio corrigido em 1785, quando
Edmond Cartwright inventou o tear mecânico.
Cada problema surgido exigia nova invenção. Para mover o tear
mecânico, era necessária uma energia motriz mais constante que a hidráulica, à
base de rodas d’água. James Watt, aperfeiçoando a máquina a vapor, chegou à
máquina de movimento duplo, com biela e manivela, que transformava o movimento
linear do pistão em movimento circular, adaptando-se ao tear.
Para aumentar a resistência das máquinas, a madeira das peças
foi substituída por metal, o que estimulou o avanço da siderurgia. Nos Estados
Unidos, Eli Whitney inventou o descaroçador de algodão.
Revolução Social
A Revolução Industrial concentrou os trabalhadores em
fábricas. O aspecto mais importante, que trouxe radical transformação no caráter
do trabalho, foi esta separação: de um lado, capital e meios de produção
(instalações, máquinas, matéria-prima); de outro, o trabalho. Os operários
passaram a assalariados dos capitalistas (donos do capital).
Uma das primeiras manifestações da industrialização foi o
crescimento demográfico urbano. Londres chegou ao milhão de habitantes em 1800. O
progresso deslocou-se para o norte; centros como Manchester abrigavam massas de
trabalhadores, em condições miseráveis. Os artesãos, acostumados a controlar o
ritmo de seu trabalho, agora tinham de se submeter à disciplina da fábrica.
Passaram a sofrer a concorrência de mulheres e crianças, a quem os industriais
pagavam bem menos e obrigavam a trabalhar 12 a 18 horas por dia, durante os sete
dias da semana. Na indústria têxtil do
algodão, as mulheres formavam mais de metade da massa trabalhadora. Crianças
começavam a trabalhar aos 6 anos de idade. Não havia garantia contra acidente
nem indenização ou pagamento de dias parados neste caso.
A mecanização desqualificava o trabalho, o que tendia a
reduzir o salário. Havia freqüentes paradas da produção, provocando desemprego.
Nas novas condições, caíam os rendimentos, contribuindo para reduzir a média de
vida. Uns se entregavam ao alcoolismo. Outros se rebelavam contra as máquinas e
as fábricas, destruídas em Lancaster (1769) e em Lancashire (1779).
Proprietários e governo organizaram uma defesa militar para proteger as
empresas.
A situação difícil dos camponeses e artesãos, ainda por cima
estimulados por idéias vindas da Revolução Francesa, levou as classes dominantes
a criar a Lei Speenhamland, que garantia subsistência mínima ao homem incapaz de
se sustentar por não ter trabalho. Um imposto pago por toda a comunidade
custeava tais despesas.
Havia mais
organização entre os trabalhadores especializados, como os penteadores de lã.
Inicialmente, eles se cotizavam para pagar o enterro de associados; a associação
passou a ter caráter reivindicatório. Assim surgiram as Trade Unions, os Sindicatos. Gradativamente, conquistaram a proibição do trabalho infantil, a
limitação do trabalho feminino, o direito de greve.
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Lázaro Curvêlo Chaves Texto revisado em 15 de novembro de 2012
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