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Instruções aos Homens de Desejo - Louis Claude de Saint Martin
Instrução 01: Da Emanação, Da Criação e dos
Números.
Alegria, paz, saúde àquele que me ouve: Meus irmãos, Com o auxílio do Eterno, vou procurar vos falar dos princípios que são a base
fundamental de nossa Ordem e que, reunidos em um corpo, poderão constituir um
curso de física temporal passiva e de física espiritual eterna. O primeiro princípio da ciência que cultivamos é o desejo. Em nenhuma arte
temporal, nenhum operário jamais venceu, sem uma assiduidade, um trabalho e uma
continuidade de esforços para chegar a conhecer as diferentes partes da arte que
se propõe a abraçar. Seria, portanto, inútil pensar que se pode chegar à
sabedoria sem desejo, visto que a base fundamental dessa sabedoria não é senão o
desejo de conhecê-la, que faz vencer todos os obstáculos que se apresentam para
bloquear a saída, e não deve parecer surpreendente que esse desejo seja
necessário, uma vez que é positivamente o pensamento contrário a esse desejo que
afasta todos aqueles que procuram entrar para esse conhecimento. Ora, é necessário, para ali chegar, trilhar o caminho em razão do afastamento
de onde nos encontramos. Aquele que crê aí ter chegado está ainda bem longe; e
outro crê estar longe mas não tem senão um passo a dar: o que deve fazer ver que
o primeiro passo que se deve dar, deve ser na senda da humildade, da paciência e
da caridade. As virtudes são tão necessárias em nossa Ordem que não se pode nela
fazer nenhum progresso senão quando se avança nessas virtudes. Mas poder-me-iam, talvez, perguntar que ligação existe entre as virtudes e as
ciências? Esta instrução será empregada para demonstrar essa necessidade. O Ser, existindo necessariamente por si próprio, Eterno criador e conservador
de todo ser, emana de sua imensidade Divina, antes do "tempo", seres livres para
sua grande glória. Ele lhes deu uma lei, um preceito e um mandamento sobre os
quais foi fundamentada sua emanação. Esses espíritos eram livres e não se pode
considerá-los de outro modo sem destruir suas personalidades distintas. Eles vieram a prevaricar. Qual foi a prevaricação? Sem entrar em todos os
detalhes, responderei que o primeiro crime foi a desobediência. Sendo livres,
conceberam por sua plena e inteira liberdade um pensamento contrário à lei, ao
preceito e ao mandamento do Eterno. Para melhor dar uma idéia dessa
desobediência, suponha uma sentinela que se coloque de guarda, a quem se diz de
observar os diferentes pontos de sua caserna: esse sentinela é livre e não tem
necessidade para que ninguém venha lhe forçar a ficar ou a sair. Por sua própria
vontade, ela deixa seu posto e desampara todos os pontos de sua caserna, mas a
sentinela é tomada e lhe quebram a cabeça. Eis uma idéia da prevaricação dos
primeiros espíritos. A prevaricação foi ter desobedecido à lei, ao preceito e
mandamento que lhes haviam sido dados desde a emanação, e de ter concebido um
pensamento contrário àquele do Eterno. Desde então, a comunicação que tinham com o Eterno foi rompida. Deus criara o
espaço, no qual os precipitou. Mas de que se serviu Ele para expulsá-los de sua
corte Divina? Serviu-se dos espíritos de sua natureza que haviam sido emanados
no mesmo instante que os outros, e que também conceberam bem o pensamento
maldoso, uma vez que receberam a mancha, mas que fizeram uso diferente de seu
livre arbítrio, ficando inviolavelmente presos às leis, preceitos e mandamentos
do Eterno. O que prova bem demonstrativamente que os primeiros espíritos
conceberam seu pensamento de prevaricação por sua plena e inteira liberdade, e é
a fidelidade desses últimos que, sem ter nem mais nem menos faculdades que esses
prevaricadores, fizeram bom uso de seu livre arbítrio, rejeitando o mau
pensamento que lhes foi apresentado pelos prevaricadores e serviram-se de
instrumentos da justiça que Deus lançou sobre àqueles desde o instante de sua
prevaricação. É desse combate que fala a Escritura quando diz que Miguel, e seus
anjos combatiam contra os demônios e seus anjos, e que Miguel tendo sido
vencedor, os precipitou fora do paraíso Divino no espaço que acabava de ser
criado. Não existia ainda o tempo, que não é senão a sucessão ou a revolução dos
diferentes corpos. Não havia ali então matéria sutil ou grosseira, não existia
senão espíritos puros e simples: espíritos bons no paraíso Divino e espíritos
maus no espaço. Desde então, Deus concebeu em sua imaginação pensante criar este
universo com formas materiais e passivo para servir de limites e de barreira às
operações maldosas dos demônios. Ele emancipou por essa causa os espíritos
ternários do eixo "fogo central", que vieram fechar o círculo do espaço no qual
os espíritos perversos estavam encerrados, e concebeu em Sua imaginação pensante
Divina a criação do corpo principal do chefe deste universo, tanto espiritual
Divino como temporal passivo, da forma triangular eqüilátera. Esse triângulo
eqüilátero e considerado entre todos os povos da terra como contendo em si a
imagem aparente que o Eterno havia concebido em sua imaginação para a criação do
chefe deste universo; esse triângulo, repito, nos é ainda representado nas
igrejas com quatro caracteres inefáveis dos quais darei a explicação na
seqüência. Deus manifestou de seu pensamento criativo os espíritos do eixo fogo central
por esse mesmo triângulo eqüilátero, no centro do qual estava contido seu verbo
ternário criativo, como faz ver a figura seguinte:
Esses espíritos tendo inato em si, desde seu princípio de emanação, a
faculdade de extrair de seu seio as três essências espirituais que ali estavam.
Saíram, então, deles mesmos essas três essências para operar esse verbo do
Eterno. Perguntar-se-á o que era esse verbo? Direi que esse verbo continha em si
o plano, a execução e a operação deste universo. Em conseqüência, esses
espíritos do eixo começaram a executá-lo, tirando de seu seio essas três
essências que ali estavam. Essas três essências eram, em seu princípio, a
matéria em sua indiferença, porque não tinham ainda sido trabalhadas por esses
mesmos espíritos, mas eram distintas. Elas estavam, pois, segundo a linguagem da
Escritura, sem forma, ou em sua indiferença, e vazias porque a vida passiva não
havia podido ser inserida nas formas, visto que ela ainda não existia. Esse
vazio deve ser compreendido como a privação do princípio de movimento necessário
a todos os corpos deste universo. Antes de ir adiante, devo falar do princípio fundamental de toda emanação e
de toda criação, que é o número. Os sábios de todos os tempos reconheceram que
não poderia haver nenhum conhecimento seguro, seja da parte espiritual Divina,
seja da parte universal geral terrestre, seja das particulares, sem a ciência
dos números, uma vez que é por esses números que o Eterno fez todos os seus
planos de emanação e de criação. O número, sendo co-eterno à Divindade, já que,
por toda a eternidade, Deus é, o número, tem pois estado em toda a eternidade
nele, visto que Deus tem seu número. Porque, se Deus havia podido criar o
número, pareceria que ele havia podido criar a si mesmo, o que é impossível,
porque nada subsiste sem o número. Ora, Deus sendo o Ser necessário, existindo
por si mesmo, conteve, pois, toda a eternidade, todo número. Ele dotou todos os
espíritos segundo sua infinita sabedoria e ação eterna. Nenhuma de suas obras
saiu de suas mãos sem ser marcada com esse selo: tanto os espíritos emanados
como a criação deste universo, tudo tem seu número. Ora, segue-se
demonstrativamente que o conhecimento de todas as obras de Deus está oculto no
conhecimento dos números. Aí está, pois, meus irmãos, onde devemos procurar
admirar as obras do Eterno, não no sentido de nossa forma aparente passiva, mas
no sentido de nosso entendimento espiritual Divino e eterno. Por toda a eternidade, Deus foi um, ou I
. Essa unidade nos faz ver a Divindade, uma vez que ela é o princípio
de toda a criação; e o círculo que o fecha, contendo em si a unidade, contém
tudo o que dele precedeu. Os primeiros espíritos emanados tinham, pois, seu
número, os superiores 10, os maiores
8, os inferiores 7 e os menores 4. Seu
número, antes de sua prevaricação, era mais forte do que aqueles que damos
vulgarmente aos querubins, serafins e arcanjos, que não haviam ainda sido
emanados. Deter-me-ei um pouco a considerar o estado do universo dos espíritos antes de
sua prevaricação. Toda a corte da Divindade gozava da mais perfeita paz, nenhuma
suspeita de mal existia uma vez que a possibilidade do mal jamais existiu na
Divindade: todo ser saiu puro, santo e sem mancha de Seu seio. De onde, pois,
veio o mal? O mal não tomou seu princípio senão no pensamento que o chefe
demoníaco, que estava livre, concebia dele mesmo, oposto à lei, ao preceito e ao
mandamento do Eterno; não que o demônio seja o próprio mal, visto que, se ele
mudar desde hoje seu pensamento mau, sua ação mudará também e desde esse
instante, não existirá mais o mal em toda a extensão do universo. O mal, repito,
não teve seu nascimento senão no pensamento do demônio oposto àquele da
Divindade, pensamento que ele concebeu de seu puro livre-arbítrio e pelo qual
separou-se da Divindade; o que originou o binário, número da confusão, como
tendo desejado existir independentemente da Divindade ou Criador
todo-poderoso. Deus manifestou sua justiça contra esse espírito perverso, precipitando-o com
seus aderentes da corte Divina no círculo do universo; o espaço tendo sido
primeiramente criado após sua prevaricação, e tendo sido fechado pelos espíritos
do eixo do fogo central, que foram emancipados ao mesmo tempo. É o que quer
dizer o salmo: "Non accedet ad te malum" o mal não se aproximará de ti",
pela barreira que formam esses espíritos do eixo nas operações maldosas dos
demônios. Uma vez que os espíritos do eixo do fogo central receberam o verbo do
Eterno, saíram de seu seio as três essências espirituais que ali estavam inatas
desde a sua emancipação, e eles modificaram essa matéria em sua indiferença,
distinguindo essas essências de maneira que pudessem reter a impressão. Esse
trabalho dos espíritos do eixo forma uma distinção das três essências que, em
seu lugar nas essências, tudo teve forma, e os diferentes corpos foram criados;
e desde que os corpos tiveram forma, os espíritos do eixo inseriram em cada um
deles um veículo de seu fogo espiritual, que é o princípio da vida de todos os
corpos. Perguntar-me-ão, talvez, onde residiam todas essas matérias antes do
ordenamento que se denomina vulgarmente o caos, e que denominamos a matéria.
Responderei que essa matéria sem forma e vazia em sua indiferença, residia no
matriz filosófico, assim como a figura seguinte o designa:
O trabalho de todos os diferentes espíritos do eixo do fogo central foi
conduzido pela sabedoria do Eterno que a Escritura santa nos representa
movendo-se sobre as águas. Ora, nada nos representa melhor a matéria em sua
indiferença que uma água sem curso e sem movimento. Era sobre esse princípio das
essências que o espírito duplamente forte do Eterno conduzia, dirigia e fixava
os limites a todos os diferentes seres deste universo, e conduzia toda espécie
de operação de trabalho dos espíritos, fatores operantes ou fabricantes do eixo
do fogo central, ou fogo incriado. É essa sabedoria que caminhava diante do
Eterno e que aplaudia por santos transportes cada pensamento Divino que o Eterno
manifestava pela criação deste universo dizendo: "Estou em ti e em tuas obras, Criador todo-poderoso, como tu estás em mim
e nas minhas obras. Aquele que virá após instruirá tua criatura do culto do qual
deves ser servido." O trabalho dos diferentes espíritos do eixo se
opera ainda sobre esta superfície e se operará até o fim dos séculos, tal como
operaram no princípio para a criação de todos os corpos deste universo; o que
farei ver claramente na seqüência destas instruções. No momento, contentar-me-ei em dar a explicação da figura t
representando a Divindade. Essa letra hebraica representa um nome
inefável da Divindade. É o motivo pelo qual os Judeus jamais pronunciaram, por
respeito, esse nome, essa letra; aleph, pronúncia que lhe deram, não sendo a
verdadeira. c, beth,
segunda característica, representa a ação direta da Divindade; d, guimel, representa o Espírito
Santo conduzindo a operação dos espíritos do eixo; s, daleth, representa o verbo ternário do
Eterno, pelo qual ele manifesta aos espíritos do eixo seu imenso pensamento pela
criação deste universo. Os três glóbulos que estão no matraz filosófico representam o princípio das
essências, ou a matéria em sua indiferença. Ainda que se considere o Mercúrio
como sendo o princípio das três essências, não se deve dar a ele, no entanto,
uma unidade absoluta, uma vez que não pertencia à Divindade, ou aos espíritos
superiores 10, e a nenhuma essência. Assim,
essa unidade que se dá a Mercúrio é ternária, e representa as três essências em
sua indiferença, em aspecto umas com as outras, sem movimento, sem formas;
porque elas não haviam sido trabalhadas, modificadas e operadas pela imensidade
dos espíritos agentes, fatores ou operantes do eixo fogo central. Denominamo-os
eixo fogo central porque eles são aderentes à corte da Divindade e eternos. Poder-me-iam, talvez, perguntar porque Deus, tendo previsto o pensamento
maldoso dos demônios não os conteve nos limites que lhes estavam prescritos?
Responderei a essa objeção dizendo que Deus é imutável em seus decretos, seja a
respeito do que aprova ou condena sua criatura e que ele não toma nenhuma parte
nas causas segundas, tendo fundamentado todo ser sobre leis invariáveis, e a
primeira dessas leis é a liberdade. Ora, Deus não pode destruir, em qualquer
espírito que seja, seu pensamento sem destruir sua liberdade; se ele destruísse
sua liberdade, destruiria a lei que deu a esse espírito desde sua emanação. Ora,
a imutabilidade de Deus sendo irrevogável, ele não pode ter de maneira alguma
conhecimento do uso que fará de seu livre-arbítrio todo ser livre. Porque, se a
Divindade tivesse tido conhecimento pareceria que ela teria permitido o mal, o
que é impossível. Deus, sendo necessariamente bom, não pode emanar senão seres
como ele, mas distintos em sua personalidade e livres. Ora, Deus não teria podido destruir, mesmo quando tivesse tido conhecimento
desse pensamento nesses espíritos, sem destruir os atributos e a manifestação de
sua glória e de sua justiça: de sua glória para com os espíritos fiéis, e de sua
justiça para com os espíritos perversos. Estejamos, pois, bem convencidos, meus
irmãos, de que o Eterno não previu jamais o que não existia efetivamente no
pensamento de um ser livre. Porque, se ele pudesse prever o uso de seu livre
arbítrio, esse espírito, desde esse instante, cessaria de ser livre. Mas o que a
Divindade concebe perfeitamente, é o uso que faz qualquer espírito de seu livre
arbítrio. Desde o instante em que esse espírito concebe seu pensamento, seja
bom, seja ruim, ele é lido e julgado pela Divindade. O que lhe dá o nome de Deus
vingador e remunerador: vingador do ultraje feito à sua lei, e remunerador do
bom uso dessa lei para sua maior glória. Vejamos, portanto, bem, meus irmãos, que o princípio ou a origem do mal veio
do orgulho. Ora, por uma seqüência necessária, o princípio de todo o bem deve
ser a humildade, a paciência e a caridade: a paciência pela necessidade de
suportar as fadigas de uma penosa viagem, e a caridade pela necessidade absoluta
de suportarmos os erros de nossos semelhantes e de procurarmos corrigi-los
tornando-os bons. Essa virtude é tão necessária que uma companhia de perversos
não subsistiria vinte e quatro horas se estivesse inteiramente privada dessa
virtude. Essa virtude em sua perfeição faz a reunião de todas as outras, visto
que é a que mais se aproxima da Divindade. É, pois, meus irmãos, pela prática
constante dessas virtudes que nossa união será durável, e que engendrará
inúmeros frutos de inteligência, de conhecimento e de sapiência. Estabelecendo
uma correspondência mais estreita entre os irmãos uns com os outros, ela tornará
comuns os conhecimentos particulares de cada um, e produzirá assim a unidade,
que é a base da Ordem. Felicito-me, meus irmãos, pelo Eterno ter-me dado a graça de vos falar.
Estejais bem seguro de meu zelo, de minha afeição e de meu desejo sincero para o
bem geral deste oriente. A graça que vos peço é de aqui colocar cada um o mesmo zelo, e Deus secundará
nossos propósitos.
Meus irmãos, Vimos no discurso precedente o motivo da criação deste universo, ou do tempo,
que não deve se compreender senão na duração sucessiva dos diferentes corpos que
o compõe, que por seu curso de correspondência formam intervalos iguais cuja
medida é o que se denomina vulgarmente o tempo. (Mostrarei, na continuação, como
a alma está sujeita ao tempo enquanto está em sua prisão, ou no corpo do homem.)
Porque não é necessário pensar que a Divindade possa ser encerrada por algum
limite: sua imensidade sendo infinita, nenhuma criação pode contê-la; nem
restringi-la. É, ao contrário, a Divindade que contém toda espécie de emanação
concernente ao espírito, à criação e ao que diz respeito às formas aparentes.
Isso é tão verdadeiro que um espírito puro e simples não poderia estar sujeito
ao tempo, uma vez que estando sem corpo de matéria, nenhum corpo dessa matéria
aparente pode lhe servir de limite, pois sua lei sendo superior à das formas,
ele penetra através de todas as diferentes leis que formam a aparência das
formas e ele as comanda e dirige segundo a vontade do Eterno. Eis porque nenhuma
parte da criação pode ter sua existência senão pela operação desses mesmos
espíritos; o que explicarei ainda melhor na seqüência deste trabalho, quando
falarei dos corpos planetários. Continuemos a criação. A matéria em sua indiferença residia no matraz filosófico, assim como explica
a figura precedente. O Nada não possuía forma. As essências espirituais, sendo
um aspecto umas das outras sem movimento, estavam nesse estado que se denomina
vulgarmente caos. O que rompeu esse estado de indiferença e deu princípio à
formação dos diferentes corpos? Foi a operação dos espíritos do eixo fogo
central, ou fogo incriado, que haviam emanado de seu seio essas mesmas
essências. Qual foi sua operação? Sua operação foi modificar as essências, de
maneira a reter a impressão e de formar distinção entre às essências. É essa
distinção que dá princípio às formas, adaptando as diferentes divisões e
subdivisões do número ternário nas modificações que os espíritos do eixo haviam
feito nas essências, isto é, que sua operação tornou a essência de mercúrio mais
sólida que as do enxofre e do sal, a do enxofre mais móvel que as do mercúrio e
do sal, e a do sal mais fluida que as do mercúrio e do enxofre. Essa primeira distinção dá primeiramente nascimento ao número senário, uma
vez que no primeiro princípio da matéria em sua indiferença, o misto ternário
residindo em sua indiferença no matraz filosófico não formava nenhum corpo
aparente, nem suscetível de reter nenhuma impressão. Foram, pois os espíritos do
eixo fogo central aqueles que, conforme o pensamento do Eterno, que lhes havia
sido anunciado por seu verbo ternário, engendraram por sua operação o número
senário, dando a distinção às essências: mercúrio, 1; enxofre, sendo a
segunda distinção, 2; o sal, sendo a terceira, 3. Ora, adicionando
misteriosamente 1 e 2 fazem 3, e 3 mais 3 fazem 6. Eis, pois, a manifestação dos
seis pensamentos do Eterno; e não dos seis dias que a Escritura atribui
emblematicamente ao Eterno, uma vez que, como já disse acima, o Eterno sendo
infinito em sua imensidade não pode ter nenhum limite de duração sucessiva, que
não é senão a mudança de sucessão ou de relação, dos corpos uns com os outros.
Mas o Eterno manifesta pensamentos como os diferentes espíritos executam segundo
o plano que lhes é dado. Vemos, pois, que do número ternário veio o senário, uma
vez que o verbo ternário do Eterno, estando toda eternidade nele, não pode ter
princípio, visto que emanou do Eterno, mas o número senário foi engendrado pela
operação dos espíritos do eixo; assim, provo por demonstração a necessidade do
fim deste universo uma vez que ele não existe em princípio senão pela operação
dos espíritos do eixo, e que a operação de qualquer espírito qualquer sendo
finita, não pode durar senão todo o tempo que o Ser infinito o comanda; o que
faz cair por terra a objeção da eternidade da matéria, visto que é impossível
que tudo o que teve um princípio possa durar sempre, diante de toda necessidade
ter fim. Vemos, pois, o nascimento do número senário quanto às formas. É necessário
não confundir os números com os corpos. O número, como já disse anteriormente, é
co-eterno, pois, de toda eternidade, o número tem estado em Deus. Mas os corpos
não sendo puramente senão aparentes, e não subsistindo senão pela operação dos
espíritos, não podem se considerar senão como passivos. Desde que a operação dos
diferentes espíritos será infinita, eles cessarão, e não será mais discutido
sobre este universo como era antes de sua formação. Denomino a divisão das
essências - mercúrio, 1, enxofre, 2 e sal 3 - o nascimento
do número senário, uma vez que a operação dos espíritos do eixo que lhe deu
nascimento. O princípio de todos os corpos foi, pois, o número ternário; a
formação desses mesmos corpos o número senário, que realizou os seis pensamentos
que Deus havia tido para a criação deste universo, manifestados aos espíritos
agentes, fatores ou fabricantes do eixo fogo central. A partir do momento em que
o número senário teve sua realização, as formas tiveram seu nascimento; e para
melhor prová-lo, não se tem senão que observar o que segue sobre os três números
3, 6 e 9. O número é a subdivisão das essências em todos os corpos. O princípio
de mercúrio é um misto ternário que contém nele enxofre e sal, 3; o enxofre
contém sal e mercúrio, 3; o sal contém mercúrio e enxofre, 3. A subdivisão dá,
pois, 9; porque a unidade propriamente dita não poderia pertencer aos corpos,
ela não pertence senão à Divindade. A unidade atribuída na divisão simples à
mercúrio não é considerada senão relativamente ao misto de mercúrio, que é a
base das duas outras. O número 9 é, pois, a subdivisão das três essências, ou
dos diferentes corpos, assim como segue: 3 à mercúrio, 3 ao enxofre e 3 ao sal
fazem 9. Assim, 3 para as essências consideradas em sua particularidade, 6 para
a divisão e 9 para a subdivisão; 3, 6. 9/18/9. Eis a origem da matéria. Resta-nos falar do triângulo, o que faremos na seqüência. No momento, contentar-me
Vede, pois meus irmãos, um princípio da necessidade que temos todos de seguir
essas santas leis, pois à medida que nos aproximamos do Eterno, a Luz se
aproxima de nós. Se nós nos separamos dele, as trevas se apoderam de nós. Darei
a explicação seguinte às diferentes dimensões do triângulo; no momento,
continuarei ainda sobre a criação dos diferentes corpos. Perguntar-me-ão, talvez, como os espíritos do eixo puderam emanar de seu seio
as 3 essências, e como puderam através delas formar todos os corpos deste
universo sem nenhuma matéria? Responderei que, desde o princípio de sua
emanação, esses seres tinham inatos em seu seio essas três essências, que não
devem ser consideradas senão como um produto de sua operação. É, pois, dessa
operação única, segundo o pensamento do Eterno, que todas as formas tiveram
lugar. Ora, direi que a prova física que esta operação dos diferentes espíritos
é a única coisa que dá existência às formas, é que os espíritos que comandam os
diferentes corpos deste universo não poderiam ser limitados por esses mesmos
corpos, assim como se pode observar que existem homens que vêem no corpo de um
homem a circulação do sangue, outros no corpo geral da terra a circulação das
águas, outros que vêem, em um altar, ou em uma distância prodigiosa, corpos que
os outros homens não poderiam perceber. As virtudes particulares a esses homens
nos fazem ver bem que as leis da privação não são as mesmas entre todos os
homens, uma vez que a maior parte dos outros homens estão privados de ver as
coisas do qual acabo de falar. Se a matéria fosse real, todos os homens veriam
da mesma maneira, não haveria para eles todos senão a mesma lei, assim como se
pode se convencer pelo pensamento, que é o mesmo entre todos os homens nos
objetos eternos como ele, tais como os números. O triângulo D , apresentado a todos os homens do universo, dá o
pensamento distinto do número ternário, uma vez que um ângulo não é o outro,
ainda que as propriedades dessa figura sejam imensas. Mas, no momento em que
cada homem o considera, o pensamento que daí resulta pelos números é o mesmo. A
superioridade dos homens vem pois, mais ou menos da pureza que lhes faz observar
um maior número de propriedades. Ora, a particularidade distinta de cada homem
no que se relaciona aos espíritos vem do pensamento, que é mais ou menos variado
em suas propriedades sempre relativas à operação desses mesmos espíritos. A
matéria não é, pois, senão aparente, e não subsiste senão pelo trabalho que os
diferentes espíritos fazem para nós fazê-la parecer tal como é; não há nenhum
dos espíritos que a operando não seja infinitamente superior a ela, uma vez que
sua operação sendo finita, e sendo todos eternos, comandam a todos seus
trabalhos, que não subsistem senão pela lei do Eterno e que não terão fim senão
quando essa lei for realizada. É pois, meus irmãos, do número ternário que toda
produção de forma se fez, assim como segue: 1 à Divindade, 2 ao demônio, e 3 às
formas que vieram para conter esses mesmos demônios. Os espíritos do eixo fogo central tiveram toda espécie de faculdade para a
produção, a conservação e a reintegração dos diferentes corpos. Não é
surpreendente que sua operação tenha produzido este universo, que foi criado
para conter os primeiros espíritos perversos, e para servir de barreira a suas
operações más, que não prevalecerão jamais contra as leis inalteráveis que o
Eterno destinou a cada parte deste universo. O número ternário, como vimos, é a
operação que os diferentes espíritos realizaram para conter a confusão.
Igualmente, todos os esforços desses espíritos jamais destruirão algum gênero ou
alguma espécie dos corpos que compõe essa criação, nem irão alterar em nada sua
durabilidade, uma vez que os sustentáculos desses mesmos corpos são espíritos
superiores a todos seus antagonistas e tendo Deus em sua mente, enquanto os
espíritos maus são continuamente limitados em seus trabalhos de destruição,
porque a destruição não podendo ter senão uma força limitada pela desunião que
daí resulta, se encontra forçada a ceder à união indissolúvel das partes
constitutivas do todo, operantes pelo apoio da Natureza, como se pode comprovar
lançando uma olhada sobre as reproduções da vegetação. Se o semeador que semeia
um campo semeasse trigo ou outro grão, e a metade da produção da vegetação de
sua semeadura fosse boa e a outra estragada, não se poderia jamais tirar trigo
da terra, visto que a podridão sendo igual à boa vegetação produziria uma
mistura desigual que não daria jamais farinha. Ora, está demonstrado que se
retira das diferentes sementes que semeamos sobre o corpo geral, ou a terra,
mais bom grão do que grãos ruins, pois todos os seres de forma aparente que
estão sobre a superfície da terra deles se alimentam. Essa indução pode nos
levar a observar que o mesmo acontece para todos os diferentes corpos que são
sem cessar atacados e que subsistem a todas as doenças. Entretanto, após o
início deste universo, nenhum gênero dos diferentes corpos foi destruído. O que
deve nos convencer da superioridade da operação dos espíritos operando para o
bem sobre àqueles que operam para o mal: uma é benigna e pura, santa e durável;
e a outra é impura e passiva, pois desde que o universo tiver feito sua
reintegração, a operação dos maus espíritos contra ele terminará, ou, ainda, que
aquela de todos os espíritos contra ele terminará, ou, ainda, que aquela de
todos os espíritos bons que contribuíram com sua produção, sua manutenção e sua
reintegração, começará um novo gênero de ações seguindo as leis santíssimas que
agradará ao Eterno traçá-las. Eis, meus irmãos, pelo número ternário. No discurso seguinte falaremos das diferentes propriedades do triângulo e da
emanação do homem. Convido a todos a uma união eterna e indissolúvel que nada possa alterar.
Vossa constância em vos unir será o selo de vossa felicidade. Uni-vos a mim para
rogar ao Eterno que nos dê a todos a graça de caminhar cada vez mais na Luz. A
Ordem que abraçastes é a depositária da Luz que deve vos conduzir. Vossa
exatidão, vosso zelo e vossa perseverança em segui-lo serão amplamente
recompensados, e, enquanto tudo conspira para afastar o homem de seu princípio,
sereis o depositário do rumo que deve ali conduzir o homem para não mais dele se
afastar. Que a caridade esteja eternamente em todos nós. Amém!
Meus Irmãos, Vimos pelos discursos precedentes a matéria em sua indiferença residente no
matraz filosófico; seguiremos agora os diferentes trabalhos dos espíritos do
eixo fogo central que darão forma a essa quantidade informe de essências
espirituais. O Eterno tendo concebido criar este universo para ser o asilo dos primeiros
espíritos perversos e para conter a sua operação ruim que não prevalecerá jamais
contra suas santas leis, apareceu-lhes, em sua imaginação pensante Divina, a
forma do triângulo eqüilátero, para ser a do regente deste universo, ou do
homem, e do corpo geral, ou da terra, e por ser a da operação de todos os corpos
imensos deste universo. Ora, como nenhum pensamento pode ficar no Eterno sem
ação, ele lançou fora de seu seio seu verbo de criação que estava no centro do
triângulo eqüilátero, e o fez descer entre os espíritos do eixo fogo central
para que eles o executassem conforme seu conteúdo. A seqüência deste discurso
fará ver que o triângulo eqüilátero contém não somente todos os números de forma
deste universo, mas ainda todos os números co-eternos. Essa figura, famosa entre os antigos e considerada com muita veneração, nos
anuncia bem que ela encerra grandes coisas. Com efeito, é pelo triângulo que nós
elevamos a todos os conhecimentos, seja espirituais Divinos, seja espirituais
temporais. O triângulo eqüilátero continha, em seu verbo ternário, a lei, o
plano e a operação de todos os corpos deste universo. Isto foi aos espíritos do
eixo fogo central o que representa o plano de um soberbo palácio aos maçons que
o executam: tendo inatos neles os materiais convenientes a essa execução, não é
surpreendente que eles o tenham executado com muita regularidade, ordem e
proporção, pois a própria sabedoria do Pai dirigia a execução desse plano e
presidia os diferentes trabalhos necessários e fixava em todo ser o limite que
deveria ter. O aspecto da figura do triângulo inscrito no círculo nos dá
claramente a idéia de um número ternário por seus três ângulos: damos a oeste ao
ângulo saliente inferior, o sul ao segundo e o norte ao terceiro. Esses três
ângulos nos dão a idéia da divisão que os espíritos do eixo deram à matéria da
universalidade das formas, modificando as essências segundo a forma triangular,
isto é, dando a parte sólida ao oeste, que denominamos mercúrio, a parte fogosa
ao sul dado ao enxofre, e a parte salina ao norte dada ao sal, ou a parte
aquática. É positivamente essa distinção que dá forma a todo universo. Mas, para
melhor fazer sentir, darei uma imagem palpável na formação de uma criança no
seio de sua mãe. Se observamos o seminal reprodutivo, não somente do corpo do homem, mas da
maior parte dos animais, ele nos representa a matéria em sua indiferença. Não se
dirá que ele dá os indícios de um misto modificado, visto que não tem
positivamente forma; do mesmo modo foi a primeira essência que os espíritos do
eixo central extraíram de seu seio. Esse seminal inserido na matriz, que serve
de forno para o cozimento do embrião, é primeiramente trabalhado pelos espíritos
do eixo e os espíritos elementares, que modificam o mercúrio e formam uma
distinção. A partir do momento em que a distinção está formada, o embrião tomou
forma, isto é, desde que a essência de mercúrio, que constitui a parte óssea,
ficou distinta da parte sulfurosa que forma o sangue, e da parte salina que
forma a carne. Desde então, o embrião tomou corpo, o que acontece no término de
quarenta dias. Como todos os sábios do universo sabem fisicamente que o ser
espiritual Divino desce no corpo da criança residindo no centro da matriz e
nadando no fluído, coberto por um véu ou envelope, não duvidemos, meus irmãos,
que esse trabalho que se faz para a formação da criança não seja realmente o
mesmo que se faz para a criação deste universo. Os espíritos do eixo possuíam
desde sua emanação uma essência espiritual que podemos considerar como seminal
produtivo das formas. Do mesmo modo que esse seminal é operado da matriz,
igualmente eles o operam no matraz filosófico, que se pode ainda considerar como
a matriz do universo. Mas qual foi o plano que seguiram os espíritos do eixo? Esse foi, como já
disse, o triângulo eqüilátero (veja a figura). Damos 1 a mercúrio no
oeste, formando o sólido; 2, ao enxofre no sul, formando o fogoso; e
3, ao sal, no norte, ou fluído. A unidade é ainda dada a mercúrio, como
tendo sido o primeiro misto; 2 ao enxofre como tendo sido o segundo; e
3 ao sal, como tendo sido o terceiro, o que nos dá claramente o número da
fatura, 6, como diz a Escritura emblematicamente que Deus emprega 6 dias
para a formação do universo. Ora, sabemos que Deus é um ser infinito,
todo-poderoso e sem limites. O que é sem limites não pode estar sujeito ao
tempo. Assim, os seis dias significam que Deus empregou seis pensamentos para a
formação deste universo, e a prova disso é palpável, porque todos os corpos
trazem consigo a imagem. Qual é agora o plano que esses mesmos espíritos seguem para a formação do
corpo da criança? A imagem deste universo, que não é outra coisa senão a
repetição daquela do triângulo. O corpo do homem tem uma figura triangular
eqüilátera perfeita e contém resumidamente tudo o que o universo contém em sua
imensidão, o que fez com que os sábios denominassem o corpo do homem o
microcosmo, ou o pequeno mundo. Vemos, pois, uma semelhança perfeita da operação
dos espíritos do eixo para a formação do universo, com aquelas que fazem ainda
todos os dias para a formação do corpo de uma criança. Em uma, eles seguiram o
plano que o Eterno lhes enviou, que é o triângulo eqüilátero no centro do qual
estava o verbo ternário da criação. Os mesmos espíritos empregam, na outra, para
a formação do corpo da criança, o plano de todo este universo: o que farei ver
em detalhe na seqüência, demonstrando, na enumeração de todas as partes do corpo
do homem sua similitude com aquelas do grande mundo ou o universo, que
distinguiremos em três partes, a saber o universal, que é dado no círculo do
eixo fogo central, o geral dado à terra, e o particular dado a todos os seres
espirituais Divinos e animais espirituais deste universo. Os diferentes espíritos do eixo executaram, pois, o plano que o Eterno lhes
havia manifestado por seu verbo de criação no centro do triângulo eqüilátero. No
primeiro princípio, o misto de mercúrio em sua indiferença era ternário, visto
que a unidade propriamente dita é puramente espiritual e não poderia pertencer
às formas; mas se considera as essências no matraz filosófico como sendo sem
movimento, em aspecto umas das outras. O trabalho que fizeram os espíritos foi
de distingui-los; de onde vemos nascer os diferentes números de criação, saber 3
a essas três essências, 6 a subdivisão simples, como o dissemos acima, e 9 à
subdivisão, porque essas três essências sendo mistas, contém, ainda que
distintas, cada uma, uma parte umas das outras. Adicionai os três números: 3, 6,
9/18/9. Dão 18 que adicionado a ele mesmo, dá 9. Adicionai ainda a esse 9 os
três ângulos do triângulo eqüilátero: 9 e 3 fazem 12/3. Vemos, pois, que o plano
que apareceu na imaginação do Eterno era ternário, visto que era um triângulo
eqüilátero. Assim, os espíritos do eixo operaram na criação deste universo o
número ternário, pois todos os corpos deste universo, tanto celestes como
terrestres, contêm esse número, após as quatro operações de produção, divisão,
subdivisão e de figura: o que se pode observar em toda a natureza, uma vez que
não se vê senão da terra dada ao sólido mercúrio do fogo dado ao enxofre, e da
água dada ao sal. É necessário evitar fazer quatro princípios, como os homens de
trevas deste século, que distinguem a parte aérea. Não há aqui positivamente
senão três princípios. O ar não é senão uma água rarefeita e, se quisessem
dividi-la, encontrar-se-ia ainda o número ternário: a água, o ar e o éter que
qualificamos cristalino e que a Escritura Santa denomina as águas superiores.
Toda a diferença que existe entre essas águas com aquelas que rodeiam o corpo
geral, ou a terra, é que quanto mais elas descem, mais elas têm peso, o que se
pode verificar pela diferença do ar de uma parte baixa com o que se respira
sobre uma parte elevada; um é espesso e o outro é rarefeito, e o é em razão da
elevação. Todas as formas tomaram seus princípios dessas três essências e é por
elas que são alimentadas durante sua fase de produção, de vegetação e de
reintegração, o que forma a duração sucessiva dos diferentes corpos deste
universo, que não podem durar, em razão da vida, da forma e da figura na medida
em que são alimentados pelo misto de sua natureza. De onde demonstro fisicamente que nenhum ser espiritual Divino pode ter a vida espiritual Divina sem estar unido ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, porque os corpos mais brutos deste universo, como os mais ornados e os mais perfeitos, foram criados por ordem do Eterno para ver uma imagem palpável do que se passa na parte espiritual Divina. Vemos, pois, a similitude que há em razão da semelhança do ser espiritual
Divino: um é eterno e outro é passivo. Entretanto, como o passivo foi criado
para servir de prisão ao ser menor eterno, ele contém não somente em si sua
existência particular, mas serve ainda de livro de lei a esse ser espiritual
Divino. Eis as tábuas famosas que Moisés portava em suas mãos, descendo da
montanha! Uma, na mão direita, figurava a lei que o Eterno animou no ser menor
espiritual Divino, e aquela da mão esquerda figurava a lei que ele animou na
forma, para constitui-la em força durante o tempo de seu curso temporal. Do que se trata, pois, meus irmãos? Trata-se de fazer descobertas imensas e
de passar sua vida na meditação? Absolutamente não. Trata-se de seguir, cada um
de nós, essa lei inefável que Deus gravou em cada um de nós e que fala sem
cessar a nós mesmos. É escutando a voz daquele que nos a apresenta sem cessar,
que chegaremos a descobrir as coisas que nos foram ocultas pelo véu que deixamos
colocar sobre as tábuas da Lei, de forma que Israel força Moisés a colocar um
véu sobre sua cabeça ao lhe ler a Lei, porque suas almas não estavam
suficientemente puras para suportar o aspecto de fogo que saíam da cabeça de
Moisés. Ora, todos os homens têm esse véu enquanto fazem o mal e o rasgam ao
fazer o bem. Aquele que o tem nas mãos é o ser mais perfeito. É, pois, em
direção dessa luz Divina que devem se dirigir todas as nossas pesquisas na
medida em que aquele que trabalha para aí chegar, emprega sua vontade. Todas essas verdades estão demonstradas a cada dia sob nossos olhos pelos
diferentes seres que nos cercam e que não alcançam êxito em nenhum
empreendimento de qualquer natureza que seja, senão pela constância que têm a
seguir. Ora, essa constância parte de um grande desejo de conhecer a fundo o que
se procura. Citarei a esse respeito o exemplo de um homem que caiu em um poço
bem profundo, e que se encontra só. É preciso, para que ele saia dali, que dê o
impulso necessário. Se, quando está quase no meio começa a se impacientar por
não chegar em cima, corre o risco de tornar a cair, e se sua impaciência
continua, corre grande risco de perder as forças necessárias para dali sair,
mesmo com todos os socorros humanos. Acabamos de ver como o triângulo contém em si as diferentes dimensões das
formas aparentes e que é por ele, segundo a lei do Eterno inserida no centro do
dito triângulo, que a imensidade dos espíritos do eixo fogo central operou todas
as formas deste universo. Farei ver no discurso seguinte como se fez a explosão
das formas contidas no matraz filosófico. Resta-me recomendar-me a vossas preces
e de vos rogar que vossas reuniões adquiram a maior regularidade e que sejam
seguidas sem nenhuma interrupção; o que peço de toda minha alma ao Eterno e que
ele esteja sempre com todos nós. Amém. Amém. Amém. Amém.
Meus irmãos, Desde que a imensidade dos espíritos do eixo foi modificada, as essências que
haviam extraído fora de seu seio no ponto de reter impressão, isto é, que
distinguiram os três princípios em sólido dado ao mercúrio, em móvel dado ao
enxofre e ao fluído dado ao sal. A partir desse momento, tudo toma vida pelo
veículo eixo central, que os espíritos inseriram em cada corpo para servir de
ponto de reunião à operação desses mesmos espíritos para a produção, vegetação e
reintegração; desde então, o vazio de que fala a Escritura cessa. Não se pode
entender o vazio senão pela privação desse veículo em todos os corpos, de forma
que o que ela diz, que tudo era sem forma, deve se compreender a indiferença da
matéria de seu princípio, pela ausência da modificação e da distinção que dá
forma ao que era informe, e vida ao que estava privado dela. A matéria residindo
no matraz filosófico conforme os espíritos do eixo o haviam emanado fora si
mesmos, era em sua indiferença, 1. Os espíritos do eixo a modificaram, e,
desde que seus princípios foram distintos em seus mistos, tudo teve forma,
2. Após tudo ter forma, eles deram, para formar a vida ou o movimento de
todos os corpos, seu veículo eixo central em todos esses corpos, 3. Paremos aqui. Os espíritos do eixo, tendo feito todo esse trabalho,
realizaram a lei, o preceito e a ordem, que estavam inatos neles desde sua
emanação, executando seis pensamentos do Eterno contidos no triângulo
eqüilátero, imagem que o Eterno havia concebido para a criação deste universo e
daquele que devia ali presidir, e no verbo ternário residindo no centro do
triângulo tal como a figura do discurso precedente o representa, e dá claramente
a idéia do número ternário, visto que qualquer homem que seja do universo não
poderá refutar que o ângulo do oeste não é o ângulo do sul, o ângulo do sul não
é o ângulo do norte e o ângulo do norte nada tem dos dois outros, o que dá
claramente a idéia do número ternário. O verbo que estava no centro é também ternário, como o demonstrarei pela
figura apresentada abaixo. Considerai o triângulo inscrito nos três círculos. Não é necessário ser
matemático; a natureza age mais simplesmente que seus procedimentos fatídicos e
puramente materiais. Não é preciso senão dois olhos para ver que o centro é o
gerador do triângulo; e não somente dele, mas de toda a figura. Para se
convencer disso, não temos senão que observar a dificuldade que temos em
descrever um triângulo eqüilátero sem seu centro, que se descreve com facilidade
desde que se parta desse triângulo. A natureza escolhe sempre a mais simples
via, e tudo que não está marcado nesse selo deve ser observado como apócrifo.
Não somente o centro é o gerador do triângulo, mas ele é também sua vida: as
três linhas que partem do centro nos fazem ver sua relação íntima com os três
ângulos. Se essa relação cessasse, o triângulo eqüilátero estaria morto, isto é,
ele teria uma outra figura que não seria mais a sua. Ora, a figura do triângulo
eqüilátero contendo todos os números co-eternos, não pode pois morrer, uma vez
que ela foi produzida pelo pensamento direto do Eterno.
Ora, o que sai dessa fonte inefável e imprevisível como ela, é positivamente
o plano dos espíritos do eixo, como farei sentir bem claramente. Não é verdade
que uma vez que os três princípios, mercúrio, enxofre e sal, tendo sido
distintos, formaram todos os corpos deste universo? Atenho-me àquele princípio
do corpo geral, ou a terra, que é um triângulo eqüilátero. Não é verdadeiro que
esses três ângulos terrestres, ou de toda forma qualquer, não poderiam ter aqui
movimento, nem vegetação, nem produção alguma, sem esse veículo que é a vida de
todos os corpos? Ora, vejamos bem, fisicamente, que esse veículo é ternário: por
uma de suas modificações ele opera sobre mercúrio, por outra ele opera sobre
enxofre, e pela terceira opera sobre o sal. Se ele não tinha o número ternário,
não poderia acionar sobre os três princípios dos diferentes corpos, por uma lei
imutável que o Eterno estabeleceu no universo dos espíritos como na dos corpos,
que nenhum ser pode se unir a um outro se ele não tem princípios da natureza
desse ser. Ora, todos os corpos do universo se unem uns aos outros, o que prova
bem claramente que todos eles têm os mesmos princípios. Vemos, pois que a vida
de todos os corpos é necessariamente ternária, para poder manter os três
princípios do misto que os compõe. Isto é tão verdadeiro que a retirada desse
veículo produz o que se denomina vulgarmente a morte do corpo, e que nós
chamamos reintegração. Se existe algum incrédulo sobre o acima citado, eis uma experiência para
convencê-los. Quando tu procuras bem longe no universo, oh! homem, minhas obras,
tu ignoras que elas estão junto a ti; procura-as, não nos livros, compilação da
imaginação orgulhosa de tuas semelhanças, mas em minhas obras mais simples.
Observa tua fornalha, para te convencer que a reintegração do corpo vem da
retirada do veículo. Observa que tu tens necessidade de sair desse veículo,
primeiramente do fogo, 1, que se comunica com aquele de uma pedra,
2, e que dá, enfim a explosão a um fogo mais sutil, que é aquele do
enxofre contido no de um fósforo, 3. Pode-se considerar o fogo desse
fósforo como o gerador daquele da lenha. O fósforo, 1, ocasiona o fogo da
lenha, 2, e o da lenha aquele do aéreo, que é a chama, 3. Vejamos
agora sua reintegração e comecemos pelo aéreo dado ao sal. A fumaça, 1,
começa a se reintegrar em seu princípio, o ar ou o sal; o fogoso, 2, se
reintegra em seu princípio solar, ou enxofre; e, enfim, mercúrio, corpo sólido,
fica sobre a superfície terrestre compondo a cinza, 3. Vemos, por todos esses exemplos, que a matéria tomou forma pela disposição
das três essências, e que as formas tiveram vida através do veículo. Da mesma
forma ocorre com a ruptura do matraz filosófico, que se fez pela retirada do
espírito duplamente forte do Criador, que continha em privação do movimento
todas as formas contidas do matraz. Mas, uma vez que ele viu que elas haviam
sido formadas pelos espíritos do eixo, e que eles tinham operado segundo o
pensamento de seu Pai eterno, esse Verbo do Pai rompeu a barreira que havia
colocado em todos os corpos e lhes traça, assim como aos diferentes seres
espirituais Divinos que os conduziam, as diferentes operações que deveriam
seguir, tanto foram ações espirituais Divinas como leis de curso para os
diferentes seres corporificados. Ora, a ruptura do matraz filosófico, ou o que
denominamos vulgarmente, o caos, começa a se fazer no lugar que o corpo geral,
dirigido nessa atividade pela Sabedoria, vem tomar no centro do círculo
universal, o corpo geral devendo ser por sua forma triangular, o ponto central
da operação dos diferentes corpos de todo o universo; o que demonstrarei ainda
melhor na seqüência quando falarei dos corpos celestes. Desde que o corpo geral tomou seu lugar, os corpos particulares tomaram os
seus, que lhes foi da mesma forma fixado pela Sabedoria Divina do Pai. Veremos
ainda o número ternário pelo círculo universal, o corpo geral e os corpos
particulares. É da reunião de ação dessas três classes de seres deste universo
que toda a vida passiva, e que a lei das formas aparentes subsiste durante seu
curso de vegetação, produção e até o momento de sua reintegração; aquilo que se
vê com os olhos da forma, que, sem a ação espiritual dos espíritos do eixo fogo
central que acionam sem cessar sobre todos os corpos, sobre o veículo eixo
central que eles ali tem inserido, sem a reação do astro solar, nada, não tendo
vivificação nessa superfície, nada poderia produzir. Observai bem, meus irmãos, que, desde que o universo teve seu lugar, conforme
o Eterno o concebeu em seu pensamento, ele foi apresentado por nosso Divino
mestre, que lhe mostrou sua obra realizada, para que ele se dignasse lhe
conceder o selo de sua bênção. É esta bênção, ou essa dedicação do templo
universal feita ao Eterno, que nos faz conceber o princípio do número
quaternário feito de corpos e do número setenário. Farei ver, por tudo o que foi
precedido, que o universo, sendo senário por seu duplo ternário de forma
aparente e de vida de forma, foi feito sobre o plano como o Eterno havia enviado
aos diferentes espíritos do eixo, por seu verbo ternário ao centro do triângulo,
porque as três essências são para seu veículo o que o triângulo é para o verbo
do Eterno. É esse verbo que Deus concebeu e manifestou, no centro de seu
triângulo, aos espíritos do eixo fogo central, que sustenta todo este universo,
da mesma forma que o veículo faz a sustentação de todas as formas. O veículo
termina em sua reintegração entre os espíritos do eixo que o produziram, no
lugar que o verbo do Pai, sendo eterno, subsistirá para sempre no Ser todo
poderoso que o emanou, após ele ter reintegrado dentro de si mesmo. O número quaternário teve seu início na união que o Eterno fez de todo seu
universo em lhe dedicando e formando a vivificação de todos os espíritos, de
todas as vidas e de todas as formas, e servindo de centro vivificante, vivo e de
vida eterna para os seres espirituais Divinos e de vida de produção, vegetação e
reintegração, durante o período de duração de todas as formas deste
universo. Deus é tão essencialmente essencial à duração de todo ser deste universo como
um grão de areia não pode ter forma senão quando estiver unido a ele. O grão de
areia contém as três essências e o veículo, 6. Ora, o próprio veículo não
pode ter vida senão quando está vivificado. Ora, a vivificação pertence
necessariamente a Deus, que mantém sem cessar todo o universo dos seres, o que
forma o número quaternário: as essências, 1: a forma, 2: a vida,
3; e a vivificação, 4. Igualmente, dividindo as três essências,
3, a vida das formas, 3, dá o número senário, 6. A vivificação não pode ter lugar senão pelo setenário: é o raio dividido seis vezes, que é engendrado pelo centro, e que forma seis triângulos eqüiláteros, para mostrar que a lei do Eterno é universal, uma vez que é impossível descrever um círculo sem partir do centro. O centro está para o círculo assim como o veículo está para todos os corpos. A ignorância dês-se centro torna o círculo inútil para todo homem que quer operar sobre ele, e a retirada do veículo torna toda forma sem movimento, em putrefação, e faz cessar definitivamente sua lei de aparência para sua reintegração. Façamos melhor sentir a necessidade do número quaternário. O eixo central, 1, produz e mantém todos os corpos deste universo, 2; o sol os vivifica, 3. Ora, como o círculo eixo central está em comunicação direta com os sobreceleste, ele tira a vivificação, que as comunica, da Divindade, 4; o que nos faz ver que, desde o cedro até o hissopo, desde o inseto até ao elefante, desde a baleia até ao icnêumon, tudo subsiste neste universo pelo número formidável quaternário, como sendo aquele da Divindade, e que completa sua quatriple (em francês quatriple, expressão criada por Martinez de Pasqually, significando o quaternário criador que deriva da Trindade Divina) essência indivisível, imutável, infinita e inalterável. Indivisível, porque nada pode subsistir senão por sua união e que, fora dele, tudo deixa de ser, mesmo enquanto vida espiritual Divina, uma vez que ele cai na morte da privação eterna; imutável, porque ele não muda jamais, sua natureza sendo inesgotável; infinito, visto que ele é co-eterno à Divindade, sem princípio nem fim; e inalterável, porque é através dele que a Divindade opera toda emanação, toda criação, toda reintegração. É enfim por ele que toda lei Divina opera, tanto sobre os seres mais perfeitos dos espíritos eternos como sobre os seres mais brutos de forma aparente dessa superfície, visto que nada pode ter forma, movimento e via senão por ele, e que nada pode existir senão por sua união. É, enfim, ele que nos faz ver o Pai, o Filho, o Espírito Santo e o menor. No discurso seguinte, falaremos das diferentes produções da natureza das
diferentes formas deste universo. Pelo presente, observemos, meus irmãos, que
tudo o que disse nos discursos precedentes, e que acabei de dizer, nos prova que
este universo teve forma e já começa a operar, antes que o homem houvesse saído
do seio do criador. Esse assunto será tratado na sexta instrução, onde
abordarei, com o amparo do Eterno, de sua emanação. Amém!
Meus Irmãos, Este vasto universo, criado pelo pensamento todo-poderoso do Eterno, oferece
muitas belezas que se pode contemplar em detalhe. Os três círculos da figura
acima são as três principais partes que vivificam a superfície do corpo geral
terrestre. O primeiro desses círculos, denominado círculo universal, é composto
de um número imenso de espíritos fogosos eixo fogo central, que acionam sem
cessar sobretudo o que tem vida neste universo, como contendo um de seus
veículos. A ação desses espíritos é tão prodigiosa que ela consumiria logo todos
os corpos celestes e terrestres; mas a Sabedoria eterna ali providenciou o
segundo círculo que chamamos cristalino, que é composto também de um número
prodigioso de espíritos, cuja ação benigna aquática, úmida, acalma o grande fogo
dos primeiros. O terceiro círculo é composto por espíritos elementares que nos
rodeiam. É através desses três círculos que toda a natureza se mantém. A prova física do que digo desses círculos se encontra nos três ângulos do
triângulo eqüilátero de nossa terra, que nos mostra a ação desses três círculos
sobre ela. O ângulo do oeste contém todos os sólidos; é nele que se encontram
todas as rochas; corresponde também a mercúrio. A ângulo do sul corresponde ao
enxofre; também notamos que esse ângulo da terra está repleto de fogo, todos os
vulcões ali parecem reunidos. O ângulo do norte, que corresponde ao sal, reúne
todos os gelos que, como todos sabem, não é senão um sal congelado, uma vez que
se faz gelo através do sal, etc. A reunião desses três ângulos e desses três
círculos nos dá o número senário, que nos faz ver os seis pensamentos do
Eterno. A parte superior alimenta a inferior, da mesma forma que a boca, que não é
senão por onde passam os alimentos, nutre o resto do corpo: da mesma forma
ocorre com toda a superfície terrestre. Uma prova palpável de que não há ali
senão três elementos, a terra, o fogo e a água - e não o ar, que não é senão uma
água mais rarefeita, que corresponde aos três reinos: não há seguramente nenhum
reino na parte aérea. Tudo o que aqui é nasceu sobre o corpo geral, ou a terra,
e ela mesma está contida nesses três reinos. Toda a espécie volátil nasceu sobre
a superfície terrestre e não pode mesmo se sustentar sobre o aéreo senão por um
movimento contínuo que lhe faz bem sentir, pela fadiga que lhe dá, que ela não é
feita para viver no ar, como o peixe, por exemplo, que põe seus ovos e se
reproduz na água. Não ocorre o mesmo no aéreo: todos os insetos que aparecem
nessa parte começaram a nascer aqui embaixo, e a prova disso está bem clara,
porque não existe nenhuma espécie que não se alimentasse dos alimentos que estão
sobre essa superfície. Os diferentes reinos que estão sobre a terra nos provam ainda a virtude do
número ternário: o vegetal, o mineral e o animal são considerados cada um em seu
particular como particularidades distintas dos outros. Entretanto, que número
prodigioso de seres de forma aparente não contém cada um particularidades em seu
particular? O que nos dá ainda uma confirmação do que digo nesses discursos
precedentes sobre o misto ternário que compõe todos os corpos, mercúrio, enxofre
e sal; eles estão, com efeito, em todas as formas do universo como os três
reinos estão em todos os corpos da terra. Da mesma forma que esses três reinos
encerram uma prodigiosa quantidade de seres de formas diferentes, que vem
habitar em cada um desses três reinos, igualmente a modificação prodigiosa de
todas as formas universais se acomodar sob o misto ternário de mercúrio, enxofre
e sal, como sendo o gerador, o sustentáculo e o alimento de todos os corpos.
Assim que eles cessam sua união, não há mais formas; o que se pode ver pela
reintegração do enxofre, que se opera sobre o corpo da madeira de uma lareira:
logo que a essência sulfurosa reintegrou, não existe ali mais forma; enquanto
ela ali estiver, o corpo não está destruído. Como no carvão: existe ali uma
forma, mas no momento que o carvão recebeu uma nova ação fogosa que reintegrou o
que lhe restava de sua parte sulfurosa, não resta mais forma senão a cinza; se
colocamos novamente esta cinza em um grande fogo, ela se reintegra também. Perguntarei agora: o que dá a forma a essa madeira? Que são as leis
essenciais que a compõe? E o que deu o número de sua figura? Responderei que a
forma está inteiramente dissipada, uma vez que dela não se tem mais nenhum
vestígio; que essas essências estão reintegradas na parte elementar, mas que ali
sempre resta o número, e eis como eu o provo. O número é co-eterno, assim como o
fiz ver nos discursos precedentes; as formas, por mais que variem, não possuem
senão uma pura aparência, os espíritos que as formaram produziram e lhes
comunicaram seu número. Eles não podem pois perdê-lo; é absolutamente necessário
que ele retorne a eles, tal como eles o deram. Os espíritos do eixo receberam
desde sua emanação o número ternário. É preciso que o que se opera porte o
número de seus fatores, agentes ou fabricantes, visto que é por esse número de
seus fatores, agentes ou fabricantes, visto que é por esse mesmo número que
operam sobre todos os corpos que saíram de seu seio. Eles ali operam por seu
número ternário: é preciso, pois, que esse mesmo número do corpo qualquer
retorne à sua fonte primeira, visto que o número não tem seguramente nem figura
nem forma alguma, ainda que nós não possamos concebê-lo sem tal. Mas sentimos
bem, por exemplo, que um espírito não tem forma; e o mesmo ocorre com o número.
Vemos, pois, por isso, que toda a matéria não subsiste, não tem forma e duração,
senão pela operação contínua dos espíritos dos eixo fogo central que produzem,
senão através dos espíritos cristalinos que a modificam, e através dos espíritos
elementares que lhes dão seu sustento pela parte de influência que lhes
comunicam segundo a receberam pela supra-celeste Divindade. Não é preciso crer que o número prodigioso de espíritos que mantém todos os
corpos deste vasto universo, tenham eles próprios necessidade de receber uma
matéria real subsistente para mantê-lo. Realmente não. Esses espíritos têm inato
em seu seio, desde sua emanação, a faculdade de extrair essências espirituais e
de mantê-las, como um pai alimenta seu filho, porque ele tem o que lhe fornecer
para comer: o mesmo acontece com os espíritos. Eles têm tudo o que pode manter a
produção, a vegetação e a reintegração de todos os corpos deste universo, sem
que ele necessite de um veículo de matéria real existente, visto que a matéria
não tem realidade senão por sua aparência, e que sua aparência não subsiste
senão pela operação desses mesmos espíritos, que é puramente espiritual,
distinta desses espíritos puros e simples, em que os espíritos ternários são
dotados de toda espécie de faculdade, de movimento e de correspondência para a
manutenção de todos os corpos, mas eles não têm a inteligência nem o pensamento
que são dados aos espíritos puros, tais como o homem, etc. Eis o que significa a
ação espiritual, e pode-se qualificar de movimento, visto que a ação
propriamente dita pertence a seres superiores àqueles dos quais falamos e é
puramente espiritual, o que se pode conceber pela diferença imensa e
incomparável do pensamento como toda espécie de movimento dos corpos. Pode-se
fazer muitas vezes a volta no universo através dele em um instante; enquanto que
para deslocar o mais pequeno ser da superfície a uma distância qualquer é
necessário um tempo sensível, o que não se refere de modo algum ao pensamento,
que não tem limite e que não está sujeito ao tempo. Os corpos não são pois o que as crianças nos fazem ver sobre o vidro onde
colocam água e sabão e com um canudinho formam um corpo aparente que tem seu
cheio ou seu peso, sua medida ou sua figura, e seu número que é a operação dos
agentes das formas. Assopra-se esse corpo aéreo a uma altura acima daquela onde
se formou: a reação que ele opera caindo lhe faz romper sua união, ele se
reintegra no aéreo, sem que reste dele o menor vestígio aos olhos daqueles que o
vêem. O mesmo ocorre em todas as formas: tudo o que tem princípio deve ter um
fim. Esse corpo, cuja duração nasceu em um instante, é a imagem real dos corpos
sólidos da terra, tais como os diamantes, as pedras, as rochas mais duras. Sua
reintegração se dará pelas mesmas leis que as das bolhas de sabão, cada um
seguindo a modificação do que a compõe. Também não podemos mais conceber uma
matéria real existente que não podemos conceber o uso contínuo de um hábito sem
usá-lo. Um hábito forma todos os dias sua reintegração e tem necessidade de ser
renovado; o que nos faz ver a duração sucessiva dos diferentes corpos que não
subsistem senão pela operação contínua dos diferentes seres que os acionam, que
podemos ver no fim contínuo desses mesmos corpos no final deste universo
aparente. Apressemo-nos a considerar o instante em que todos os seres não terão
mais limites senão aqueles que eles mesmos se derem, pelo uso de seu livre
arbítrio que terão conquistado aqui em baixo. O Ser todo poderoso que preside a tudo e cuja bondade infinita se faz sentir
em todos os seres, não contente de ter gravado com características inefáveis as
santas leis em nossas almas e em nossos corações, quis ele próprio dar o exemplo
daquilo que devíamos seguir para participar da felicidade de seus eleitos. Suas
três santas manifestações de glória começam com Adam, 1; são renovadas
sob a posteridade de Adão pelo santo homem Enoch, 2; continuam em
Noé, 3, à reconciliação da terra; assinalaram enfim sua potência sob
Abraão, 4; depois sob Moisés, 5, na libertação do povo eleito. A
mesma libertação se fez ver sob Zorobabel, 6, pelo retorno do cativeiro
da Babilônia, vindo a formar o centro de suas operações espirituais Divinas;
pela regeneração do menor, pelo nascimento de nosso Divino mestre Jesus Cristo,
que veio colocar o selo nos menores que se tornaram, se tornam e tornar-se-ão
dignos pela 7ª eleição que fez no centro de seu receptáculo, que deveria ser o
ponto de reunião de todos os espíritos que uniram sua vontade à sua,
participando das promessas do Eterno, do fruto de tantos eleitos, da ação do
Espírito Santo, da operação de tantas graças, da destruição da barreira que nos
separava da comunicação Divina pelo pecado de nosso primeiro Pai, da operação
dos apóstolos, dos profetas e dos patriarcas, dos dons inefáveis do Espírito
Santo, e mais que tudo isso, do sangue precioso de Jesus Cristo ofertado ao
Eterno para nossa santificação e aspergido sobre o ser espiritual Divino e sobre
a forma aparente de cada um de nós que desejamos seguir as santas leis que ele
nos traçou durante sua vida. Unamo-nos todos com um só pensamento, vontade e ação para chegar ao altar de
suas compaixões no santo tempo da semana santa, onde o universo inteiro celebra
a morte de nosso Divino Salvador; morramos todos com ele ao mundo, a seu orgulho
e a suas cobiças, para ressuscitar com ele, com o hábito da santificação, ou com
o hábito de uma nova vida toda espiritual Divina, inteiramente devotada a seguir
em tudo às santas leis, preceitos e mandamentos do Eterno. Deus nos faça a
graça. Amém!
Meus irmãos, É preciso descrever o quadro da emanação do primeiro homem para traçar o tema
de nossa glória ou de nossos remorsos: de nossa glória pelo estado sublime no
qual ele foi colocado em seu primeiro princípio, e de nossos remorsos pelo
estado de declínio, erros e de trevas onde mergulhou por sua prevaricação? Mas
como remontar a esse primeiro estágio se não temos dele uma justa idéia? É
entretanto, nosso dever porque todos os nossos trabalhos têm por fim readquirir
os conhecimentos que tivemos a infelicidade de perder pela prevaricação de nosso
primeiro Pai. O universo foi criado, todos os seres que o compõe e exerciam as leis de sua
emanação, tais como a Divina sabedoria os havia prescrito; todos os corpos
ocupavam seus lugares, quando o Eterno emanou o homem, ou Adão, ou homem ruivo:
réaux, que significa ser elevado em glória espiritual Divina. Ele o
emanou em um corpo de glória, incorruptível, que não estava sujeito a nenhuma
influência da parte elementar; ele não tinha necessidade de nenhuma espécie de
alimento para a sua forma, que era toda espiritual; o espírito mais puro do eixo
do fogo central não tinha mais influência sobre essa forma senão aquele que
opera sobre a parte mais grosseira da matéria, uma vez que um corpo de glória
não é senão a forma aparente de um espírito puro, que o prende à vontade e que
abandona igualmente tornando-se espírito puro e simples. Essa forma era
semelhante com a que temos no presente. O triângulo eqüilátero, primeira imagem
que apareceu na imaginação pensante do Eterno tinha essa mesma forma; ela não
era diferente da que temos, senão na natureza: uma era gloriosa, espiritual e
positiva, e a outra tenebrosa, material e passiva. O Eterno havia criado tudo para esse homem, a quem dá o nome de Homem-Deus da
terra. Após lhe ter feito manifestar sua imensa potência sobre todo este
universo criado que lhe obedecia com respeito, ele lhe deu sua lei, seu preceito
e seu mandamento, para poder operar em relação e contra os primeiros espíritos
perversos; ele lhe instruiu sobre a finalidade de sua emanação, que deveria ser
de atacar, combater e reduzir na maior privação os primeiros espíritos perversos
e operar para a sua reconciliação; ele devia, enfim, fazer em seu favor o que
eles sempre fizeram, e que ainda fazem, contra o homem, seduzindo-o e
aprisionando-o nas armadilhas do erro e da sedução impura que empregavam contra
ele para conduzi-lo ao mal. Adão devia dirigi-los para o bem pelos diferentes
trabalhos que devia operar sobre eles. Ele havia recebido do Eterno um verbo da
posteridade de Deus semelhante a ele, pelo qual seria visto renascer fazendo
descer nas formas gloriosas semelhantes à sua, um ser espiritual Divino que o
Eterno teria enviado: Adão teria operado por seu verbo um corpo de glória no
qual o Eterno teria feito descer um espírito. Deste modo, a operação de Adão
teria sido realizada com o Eterno, e ele se teria visto renascer em uma
posteridade de Deus, do qual toda a glória teria feito a admiração dos céus e da
terra. Poderiam, talvez, me perguntar como um verbo pode produzir uma forma.
Responderia que o Eterno sendo um espírito puro, sem espaço, sem limites e sem
extensão, uma vez que é infinito, não pode emanar seres espirituais Divinos e
formas aparentes senão por seu pensamento todo-poderoso. Ora, o espírito que ele
emana é certamente verbo, como se pode considerá-lo: o pensamento engendra a
vontade, e a vontade o verbo. De modo algum ocorre com a Divindade como no caso
dos seres limitados: todo o verbo no Eterno é um espírito, enquanto que entre
todos os seres emanados, todo o verbo não é senão uma ação desse mesmo espírito.
Nenhum pensamento na Divindade pode ficar sem ação. Ora, todo o ser que ela
emana fora dela mesma sendo dotado de sua parte das faculdades necessárias para
manifestar sua vontade, tem inato nele um verbo pelo qual deve manifestá-la.
Esse verbo está tão intimamente ligado a seu ser que ele é considerado ser ele
mesmo; o que eu explicarei em maiores detalhes antes de ir mais adiante. O Verbo eterno da Divindade, residindo eternamente em união intima com a
Divindade de Deus Pai, visto que é a sua ação direta e é dessa forma a própria
Divindade, igualmente o Espírito Santo, que é a ação eterna de um e de outro,
não deve ser confundido de modo algum com nenhuma espécie de emanação, uma vez
que são as essências da Divindade. Mas todo o ser espiritual Divino, sendo
emanado da Divindade, é considerado como tendo inato em si o verbo de sua
emanação, como tendo vindo da tríplice essência da Divindade. Por sua emanação
do Pai Eterno, ele tem inato em si o pensamento; pela emanação do Filho eterno,
ou o Verbo, ele tem também seu Verbo; e pelo do Espírito Santo ele tem a sua
ação. Esse verbo está tão intimamente inato em si que é ele quem constitui a
lei, o preceito e o mandamento que deve seguir; ele contém em si o número que,
sendo co-eterno, faz a operação do pensamento do Pai, da vontade do Filho e da
ação do Espírito. É o que quer dizer a Escritura quando diz: "Os céus e a terra
passarão, mas os meus verbos não passarão jamais"; porque toda a emanação é
eterna: 1º - pelo pensamento; 2º - pelo verbo; 3º - pelo número; e, 4º - pela
própria essência que a compõe, que, sendo espiritual Divina, encontra-se inata
em si quatro faculdades eternas, visto que ela é uma emanação da
quatripla essência da Divindade. Um verbo propriamente dito é um
espírito, porque a Divindade não manifesta seu pensamento todo-poderoso senão
pelos espíritos. Ora, pensamento necessariamente sempre, ele emanou, pois,
também necessariamente sem cessar espíritos, aos quais criou virtudes, poderes e
propriedades, o que lhe dá o nome de Eterno Criador. Adão havia sido feito
depositário, em nome do Eterno, de um de seus verbos de criação de forma
gloriosa, na qual o Eterno havia feito descer um espírito Divino semelhante a
ele, e ele se teria visto, dessa forma, renascer em uma posteridade de Deus. Adão tendo manifestado, por ordem e na presença do Eterno, a imensa potência
da qual estava revestido, foi deixado só pela Divindade, para operar a força, a
virtude e potência de que estava revestido. Adão conhecia perfeitamente a
finalidade de sua emanação, e sabia que havia vindo para combater sem cessar os
maus demônios, e para operar em seu favor. Adão, deixado só, começou a refletir
sobre o imenso poder de que estava revestido, que acreditava ser igual ao da
própria Divindade e, nessa perplexidade, queria ler na imensidão Divina, coisa
que lhe havia sido proibida pela Divindade, que lhe havia dito expressamente de
jamais ler senão com a sua participação ou por sua ordem. (Essa imensidão Divina
é incompreensível a todo o ser emanado, uma vez que é preciso ser o próprio Deus
para compreendê-la). Essas buscas irrefletidas mergulharam Adão em uma
perplexidade, não conseguindo definir o que não lhe havia sido permitido ler. O
pensamento que Adão havia lido na imensidão Divina não tardou um instante de ser
conhecido pelos primeiros espíritos perversos. Antes de ir mais adiante, direi que Adão havia sido emanado no centro das
seis circunferências espirituais Divinas, da qual era o centro, e que lhe faziam
sentir que era feito para comandar a todo este universo. Ele habitava o centro
do paraíso terrestre, que não é senão o centro dos céus, visto que um corpo de
glória, sendo espiritual, não tem necessidade de base sólida para sustentá-lo.
Os diferentes frutos que lhes são atribuídos alegoricamente nesse paraíso não
são senão aqueles que o Eterno esperava desse primeiro homem, se ele houvesse
seguido o plano de sua emanação. Eles representam ainda que Adão não era
suscetível de ser alimentado por nenhum dos frutos imundos dessa matéria, mas
que ele era alimentado apenas de frutos puramente espirituais Divinos de sua
natureza, porque nenhum espírito puro e simples, tal como era Adão, não bebe,
nem come para manter sua forma, visto que ele a deixa e a retoma quando lhe
apraz. O paraíso da terra, ou terrestre, não é senão o centro dos céus, que Adão
devia habitar com toda a sua posteridade, senão houvesse prevaricado, e os
primeiros espíritos perversos houvessem habitado então a parte inferior, ou a
terra, onde eles teriam sido enclausurados nas formas de matéria aparente mais
ou menos semelhantes àquelas que nós temos. Não há dúvida de que, se Adão
tivesse permanecido fiel à lei do Eterno, ele teria sido um mediador de
reconciliação em favor desses primeiros espíritos perversos. A primeira loja que
surgiu no universo foi aquela do Criador, de seu filho Divino sob o nome de Hely
e Adão. Eles a dirigiram para concluir a forma que dariam aos primeiros
espíritos perversos. Adão devia, pois, estar consciente de que todo plano dessa
lei que deveria aplicar a esses prevaricadores dependia da força com a qual ele
os resistiria em seu combate, uma vez que o chefe dos demônios, tendo concebido
o pensamento ímpio de atacar a própria Divindade, atacaria sem dúvida os seres
emanados que ela emanaria e era, positivamente, sobre esse combate que Adão
havia sido dotado, pela Divindade, de um poder imenso para lhe resistir e
reprimir. Adão, sendo um aspecto da Divindade, lia então o pensamento do Eterno; lia
também o do espírito perverso, porque de espírito a espírito puro e simples nada
há de oculto. O que não ocorre entre os homens, que escondem seus pensamentos e
que os mascaram com palavras muitas vezes opostas: diante do espírito, tudo é
sem véu, sem nuvem e a descoberto. Eis porque a linguagem do espírito bom é
incompreensível aos homens de matéria, porque por sua junção impura com o
espírito mau eles receberam sem cessar novos véus que lhes ocultam a verdade. É
esse véu de abominação que venda todo o homem que se deixa cobrir por ele, homem
do erro, de dúvidas, de obscuridade, e o conduz definitivamente na privação
eterna persuadindo-o que ele segue a lei do Eterno, do mesmo modo que o demônio
persuadiu Adão. Porque, se o espírito mau demonstrasse ao homem todo o horror de
seus pensamentos, ele não teria se deixado seduzir, mas é através de um grande
número de prestígios que ele sabia ser suscetível de prazer pela vontade má do
ser espiritual que ele ataca, que seduz insensivelmente o sentido de sua
matéria, e em seguida o ser Divino. Suponha um homem que contempla claramente um lugar de delícias, onde todas as
belezas reunidas causam um deslumbramento à sua alma; suponha que esse homem
tenha recebido ordem de ter sempre os olhos voltados para esse lugar, e que,
desde o instante que se deixasse seduzir para olhar alhures, ele cessaria então
de ver o lugar de delícias. Alguém atrás dele o chama, e lhe diz de voltar a cabeça, que há outro lugar
mais agradável que o primeiro. Este homem é livre, ele contempla esse lugar e vê
claramente que nada pode igualá-lo. Contudo, por sua livre vontade, deixando-se
seduzir, volta a cabeça: ao invés de ver um lugar de delícias, vê apenas objetos
de horror. Ele deseja voltar seu olhar para seu primeiro objeto, mas foi
colocado um muro de dez pés de espessura que lhe impede de vê-lo. Pedi-lhe agora
que ele vos dê o plano desse primeiro lugar: isso lhe será bem difícil; ele virá
mesmo, pelo distanciamento em que está, a duvidar do que lhe dirão aqueles que o
vêem nesse momento. Adão tinha o seu livre arbítrio, da mesma forma que os primeiros espíritos
perversos: uma vez que ele vinha operar sobre eles uma justiça, ele era dotado
da mesma natureza, da faculdade pela qual os primeiros espíritos perversos
tinham pecado para lhes servir de exemplo, de instrução e de lição viva que
teria operado sobre eles uma mudança considerável. Restringindo mais e mais a
ação maldosa desses primeiros espíritos e lhes servindo de inteligência boa, ele
os teria conduzido insensivelmente a uma mudança de ação, ou a uma regeneração,
uma vez que todo o espírito que muda de lei, muda necessariamente de ação. Porque, se o chefe dos espíritos perversos tivesse mudado, adaptando-se à lei
do Eterno, não se trataria mais do mal em toda a extensão deste universo, visto
que é árvore da vida e do mal; não que seja o próprio mal: uma vez que, por sua
emanação, ele tem inato em si a lei do Eterno, ele não pode senão engendrar o
mal, e não criá-lo de alguma espécie de matéria. Toda a criação pertence
necessariamente a Deus, Eterno Criador. Os espíritos perversos não podem
engendrar senão ações opostas ao bem; o que se faz sempre neles, com uma
diminuição considerável de sua ação, uma vez que o soberano bem existindo
necessariamente na Divindade e a possibilidade do mal não tendo jamais sido, é
absolutamente necessário que todo o ser particular que quer atacar o ser
necessário torna-se o mais fraco de todos os seres. Uma vez agindo por princípios opostos àqueles que estão inatos em si, ele
sente no mesmo instante de suas vitórias, os combates no interior de si próprio,
que os humilham mais do que suas vitórias podem orgulhá-lo. Esses combates
provêm da convicção perfeita de que ele não pode destruir em si, que tudo o que
ele fez está oposto à sua própria natureza de ser espiritual Divino, e pela
falta de satisfação onde está, que não é senão a divisão daqueles que seguem as
leis do ser necessário; o que se pode considerar pela vida dos homens daqui de
baixo, que não operam o mal senão com esforço e trabalho, e não encontram senão
um vazio horrível após o êxito dos empreendimentos maus, pelos quais se prometem
as maiores satisfações. Esse estado infeliz do homem conduziu muitos deles ao
desespero, no mesmo instante que seus semelhantes, guiados pelo mesmo erro os
julgavam no auge da felicidade. Nada pode destruir, repito, a natureza das leis
que o Eterno estabeleceu. Todo o ser que delas se afasta é o mais infeliz dos
seres, porque a natureza inteira conspira contra ele, tudo estando baseado no
bem. Ele torna-se, então, o duplo receptáculo do mal e do bem: do mal que opera
com esforço, e do bem que faz seu suplício, uma vez que não pode jamais
destruí-lo, porque está inato em si. Pode-se constatar, por tudo o que acabo de
colocar, que a origem do mal não deve ser considerada como sendo a própria obra
de algum espírito que seja o próprio mal; não significa propriamente que a
vontade, oposta àquela do ser necessário engendre o mal. É nesse engendramento
do mal que faz ver a pouca solidez de todas as buscas dos homens sobre os
objetos opostos à sua natureza, uma vez que elas não tendem senão a torná-los os
seres mais infelizes da natureza, unindo-os aos professores do mal, o que se vê
todos os dias sob nossos olhos pela infeliz conduta dos homens, que, se deixam
conduzir pelo que chamamos vulgarmente de paixões e que denominamos o mau
intelecto, procuram, entretanto, nessas trevas a luz, e não a encontram jamais,
semelhante a esses navios que, na guerra, se acreditam estar, pela falta de sua
estima, em pleno mar e que, vendo algumas luzes, as tomam por navios, e,
navegando sobre elas a toda vela, não acreditam jamais chegar a tempo, não
encontram senão rochedos íngremes, sobre os quais se quebram, e encontram a
morte naquilo que acreditavam dever fazer sua felicidade nesta vida. Esta imagem
é a de todo homem que se deixa seduzir pelo nosso inimigo comum, cujo trabalho
consiste em fazer parecer aos homens suas leis de abominação tão claras quanto
as leis espirituais Divinas. Mas o homem tem poderosas armas a lhe opor. As mais poderosas são as da
oração: é através dela que o homem se une mais particularmente à ação infinita
do Espírito Santo, que lhe comunica uma força superior a todas àquelas de seus
inimigos. Depois da oração, coloco a regularidade da conduta, porque é bastante
difícil poder aproximar-se do fogo sem se queimar. A terceira são as boas obras,
que estão propriamente naquele que as faz, uma vez que elas lhe proporcionam um
fruto inalterável de graças do Eterno; que o conduzem enfim, mesmo desde esta
vida, ao abrigo de todos os ataques de seus inimigos. O que rogo ao Eterno de
conceder a todos nós. A ele esteja a glória, honra e louvores para todo ser
emanado e criado, nos séculos dos séculos. Amém!
Meus irmãos, Após vos ter traçado o estado glorioso de nosso primeiro Pai, vamos examinar
aquele em que ele caiu por sua prevaricação. Ele havia sido emanado para manifestar a maior glória do Eterno, e desejou
manifestar sua potência para sua satisfação particular, em se deixando seduzir
por seu inimigo, que lhe comunicou um plano totalmente oposto aquele das leis do
Eterno. Adão se revestiu da potência demoníaca para atacar o Eterno e cometeu
seu crime na presença dos espíritos perversos e a seu prejuízo, visto que, como
já havia dito, ele havia sido emanado para operar em favor desses primeiros
espíritos um culto de reconciliação. Adão, precipitado pela justiça do Eterno do centro das religiões celestes,
foi obrigado a ir se revestir nos abismos da terra de uma forma semelhante
àquela que temos: ele tornou-se sombrio e tenebroso por seu crime e pela nudez,
que se encontrava com a companheira e o objeto de sua desgraça, pelo
despojamento que Deus lhe fez de seu corpo de glória, como a Escritura, falando
emblematicamente, diz que Deus lhes vestiu. Ora, a vestimenta que Ele lhes deu
não foi outra senão a forma aparente que cobriu nosso ser espiritual Divino, ou
nossa alma. Deus os expulsou do paraíso terrestre, ou do céu, para arrastar-se sobre a
terra, como o resto dos animais e os sujeitou ao tempo. Foi essa sujeição que
fez Adão sentir todo o horror de seu crime, uma vez que, em seu primeiro estágio
de glória, sendo ser pensante na Divindade, não conhecia nenhum obstáculo para
se comunicar com ela; ao passo que, em seu corpo segundo, de matéria, ele se
encontra sujeito aos ataques do intelecto que vem incessantemente atacar sua
forma aparente, para atacar logo depois, desde que ali dominou, o ser espiritual
que ela encerra. Ora, enquanto a alma faz esse combate, ela não está pensante,
mas pensativa. O que de modo algum ocorria com Adão, que, tendo recebido da
Divindade um corpo de glória incorruptível recebia comunicação do pensamento do
Eterno por um ser superior que Deus lhe enviava sob uma forma aparente e que lhe
comunicava sem nenhum véu sua vontade; enquanto que tendo se tornado pensativo
pelo trabalho que foi obrigado a fazer sem cessar contra o mau intelecto, ele
não pode mais ser pensante senão pelo tempo, pela união íntima com o
espírito. Ora, essa união não é senão a recompensa da força com a qual ele rechaça o
intelecto mau, o que satisfaz a justiça do Eterno relativamente ao crime de
nosso primeiro Pai, visto que o ser da terra que gozará a maior união do
espírito deve necessariamente ser aquele que sentiu a maior privação, pois
durante o tempo que travou combate contra os maus, sua alma estava no
compartimento da privação e do temor, que é o que chamamos padecimento do
espírito: da privação pelo afastamento do espírito bom e a proximidade do mal, e
de medo pelo terror de chegar ao estado em que está o homem - presa de seu
inimigo. Ora, é a fidelidade do menor nesta batalha espiritual que fez os apóstolos e
os profetas, e é ela ainda que faz os sábios. O ser pensante está diretamente na
Divindade, ao passo que o ser pensativo não pode ali ler jamais enquanto está
pensativo, uma vez que esta é sua privação. O homem é, pois, agora pensativo e
pensante; pensativo pela sujeição onde está de fazer um combate de expiação; e
pensante pela recompensa que Deus concede às suas vitórias unindo-o intimamente
ao espírito pelo qual lê, então, na Divindade. Se cada um de nós deseja observar
o que se passa todos os dias sobre ele, sentirá a certeza do que acabo de
dizer. Essa queda de Adão, tal como está qualificada nas Escrituras, onde está
escrito que Deus lhe havia dito de comer todo o fruto do paraíso terrestre à
exceção do fruto da árvore da vida, da ciência do bem e do mal. A árvore da vida
não é senão o chefe demoníaco, que é a árvore da vida do mal por uma eternidade.
Foi, com efeito, por ter comido de seu fruto, ou por haver retido a impressão de
seu mau pensamento, visto que, como já disse acima, Adão era um espírito puro
que não bebia nem comia nenhum alimento elementar, mas era alimentado de um
nutriente todo espiritual Divino de sua natureza. O fruto proibido não era outra
coisa senão o pensamento demoníaco que Adão recebeu e que lhe acarretou a morte,
colocando-o na privação da comunicação espiritual Divina, e pela qual ataca, com
seus partidários, à Divindade. É esse crime horrível que lhe fez sentir sua nudez, uma vez que logo após ter
comido (o fruto proibido) foi despojado de seu corpo de glória e foi banido do
céu, ou do paraíso terrestre, e veio arrastar-se sobre a terra como o resto dos
animais. Adão sentiu uma perturbação inconcebível em sua forma de matéria. O
espírito bom companheiro lhe reapresenta sem cessar o horror de seu crime,
oferecendo-lhe sem cessar aquela imagem. Adão concebeu o arrependimento puro
mais amargo e começou sua penitência que durou quarenta dias, nos quais não
cessou de sofrer com sua companheira por seu crime. Esse primeiro culto de
expiação foi inspirado em Adão pelo nosso Divino mestre Jesus-Cristo sob o nome
de Hely; que ofereceu ele mesmo a Deus seu Pai, um culto para que o homem, ou o
menor, não fosse colocado pela justiça do Eterno na privação Eterna. Sem esse
culto do homem Divino, Adão não teria podido fazer penitência de seu crime e
teria se tornado o menor dos menores demoníacos, porque a penitência, ou a dor
do pecado, não pode vir jamais diretamente daquele que a cometeu, visto que ele
está, então, na condição de morto; ela lhe é sempre comunicado pelo Espírito
Santo. Ora, é sua união com o Espírito Santo que faz seu mérito, e é por ele que
adquire todas as luzes sobre os meios mais eficazes para obter a remissão de
suas faltas. Ora, é preciso sempre um mediador entre Deus e o pecador, uma vez
que Deus, sendo imutável e tendo condenado todos os pecadores à morte eterna, é
necessariamente indispensável que se encontre um justo que tome para si o peso
da morte ao qual todos os pecadores são condenados. De onde se pode ver a
necessidade da operação de justiça, de misericórdia e de reconciliação que Jesus
Cristo, nosso Divino Mestre, veio operar no meio dos tempos em favor de Adão e
de sua posteridade que se tornava suscetível como ele, uma vez que Adão, por sua
prevaricação, encontrando-se morto em privação eterna não poderia jamais ter
podido retornar à vida se Jesus Cristo não houvesse arrebatado de cima desse ser
infeliz o peso da justiça do Eterno sobre a qual ele estava, oferecendo a si
próprio a Deus, seu Pai, coberto de todo o peso do crime de Adão e de sua
posteridade. Sem esta justiça de Jesus Cristo, Adão não teria jamais podido
obter perdão de seu crime e não teria jamais podido obter sua reconciliação, uma
vez que não teria condições de ter a comunicação do Espírito Santo. Era preciso
necessariamente, para que Adão começasse um culto de expiação, que seu Divino
mediador, e de sua posteridade fosse desde esse momento oferecido como vítima de
expiação desse mesmo crime. Essa justiça do homem Divino em favor de Adão deve-nos fazer entender qual
era o culto que Deus esperava de seu primeiro homem em favor dos primeiros
espíritos prevaricadores, uma vez que Cristo disse vindo ao mundo: "Eu sou o
verdadeiro Adão." A forma de nosso primeiro Pai, após sua prevaricação, não
se alterou; ela era semelhante à forma gloriosa que ele tinha quanto à imagem,
relativamente ao triângulo eqüilátero que Deus havia concebido para ser a imagem
do chefe deste universo. O culto que Jesus-Cristo ofereceu em favor de Adão o
tornou suscetível de operar, mesmo no centro de sua forma de matéria aparente,
um culto espiritual temporal que o conduzisse à sua reconciliação perfeita, e
que ele transmitiu à sua posteridade para esse mesmo fim. Adão tendo mudado de
forma, visto que estava em seu princípio revestido de uma forma gloriosa,
totalmente espiritual e que desceu sob uma forma tenebrosa de matéria passiva;
mas a imagem é exatamente a mesma, ela continha em suas extremidades o triângulo
eqüilátero. O corpo do homem se dividiu em três partes: a primeira é a cabeça, a segunda é o peito, e a terceira são os ossos. Essas três partes estão unidas por ligamentos cartilaginosos que se podem desunir sem romper os ossos. Vemos ainda aqui o número ternário: os ossos, o sangue e a carne, que, com as três divisões, nos fazem ainda ver o número senário, ou os seis pensamentos que o Eterno empregou para a criação deste universo. Encontra-se ainda o número senário nas três essências que compõe o corpo do homem, e os três ângulos do triângulo eqüilátero, que são seis; adicionando a esses dois números, temos o número 12, ou 3, que nos fazem ver que o corpo do homem é a operação dos espíritos do eixo fogo central, que portam o número ternário e cujo trabalho deve conter o número. Poderiam, talvez, perguntar-me se as leis que Adão tinha em seu corpo de
glória são as mesmas que tem em seu corpo de matéria aparente. Responderei que
um ser que muda de ação, muda necessariamente de leis. Em seu primeiro
princípio, Adão tinha uma ação toda espiritual Divina, visto que não estava
associado a nenhuma espécie de ação temporal. Consequentemente, sua lei era
puramente espiritual, ao passo que, em seu corpo de matéria, sua ação tendo sido
extremamente limitada e estando sujeita ao temporal, sua lei foi transformada de
espiritual pura e simples em espiritual temporal, o que o tornou ser de
privação, visto que os corpos, quaisquer, são sempre um caos, ou trevas ao
espírito, o que prova demonstrativamente que a forma de matéria da qual Adão se
revestiu pelo decreto do Eterno foi feita para lhe servir de prisão, e para lhe
fazer sentir todo o tempo de morada naquela forma, o castigo de seu crime. É
pelas diferentes divisões que sofreu nessa forma de matéria passiva que satisfez
em parte a justiça do Eterno. Aqui se pode ver a necessidade absoluta que se
encontra o menor aqui embaixo para suportar o castigo da alma, do corpo e do
espírito, e para expiar a falta de nosso primeiro Pai. Entraremos, na seqüência, mais particularmente no detalhe da prevaricação de
Adão. Falarei agora do físico que se opera para a purificação do pecado. Darei
por exemplo uma barra de ferro que se tira de uma matriz, ou de uma mina. Não é
verdade que ela está repleta de partes grosseiras e sujidade, que lhe impedem de
poder servir para algum uso? Que se trabalha nela para poder devolvê-la a um
estado de pureza suscetível de conservar as diferentes formas que se deseja lhe
dar? Emprega-se o fogo mais violento de um carvão de pedra, cuja chama espessa e
suja atrai a ela todas as partes que são de sua natureza, enquanto que um outro
carvão de madeira, mais leve espalha uma chama pura, que, por sua ação superior
àquela do fogaréu contido no carvão terrestre, separa todas as partes sujas que
o outro atrai, uma vez que são de sua natureza. O fogaréu do carvão de madeira
tendo movimento muito ativo, à medida que separa as partes sujas, ele se
comunica com os veículos inatos no fogo, e lhe dá um movimento considerável, até
o ponto de lhe dar seu próprio calor fogoso. Ora, desde que há esse calor, há
uma prova certa de que está em comunicação direta com seu superior fogoso.
Então, detém-se essa grande ação fogosa pela água, que rende então o fogo à sua
pureza natural e próprio a ser empregado aos usos de sua lei. Vereis nesse corpo bruto o que se passa no corpo do homem mais favorecido
pelos dons da natureza, tal como era Adão no momento em que desceu em seu corpo
de matéria, que era corpo de pecado pela maldição que havia lançado sobre ele e
sobre toda a terra. O corpo de Adão sendo terrestre estava, pois, repleto de
partes sujas, grosseiras e de máculas que seu inimigo ali havia feito. O que
empregou Deus para purificação de seu homem arrependido, penitente e suplicante?
Ele empregou os fogos dos quais já falei na comparação que fiz: um bom,
procedente da ação toda-poderosa do Espírito Santo, cuja santidade, pureza e
ação operam com sua eficácia sobre a forma desse primeiro homem, separou
insensivelmente as manchas imundas estranhas que o espírito de trevas ali havia
colocado, enquanto que esse espírito mau que o golpeava sem cessar, atraía a ele
o que era de sua natureza. Quais eram os veículos de sua natureza? A fé, a esperança e a caridade,
inatas por ordem do Eterno em Adão. É sobre essas faculdades do homem que o
Espírito Santo soprava sem cessar para separá-las da imundice do crime de Adão,
enquanto que o mau espírito contra-atacava de seu lado para fazê-lo perseverar
em sua falta. Ora, vimos que todo o mérito de Adão foi o de estar unido ao
Espírito Santo pela fé. É por ela que separou, pelo fogo do Espírito Santo,
todas as imundices que estavam em sua alma e em sua forma, e que alcançou a sua
reconciliação, apresentando ao Eterno sua alma e sua forma em seu estado de
brancura, de pureza e inocência, tal como sua natureza espiritual Divina o
exigia. Não cessemos, pois, meus irmãos, de trabalhar sobre nós para sermos
perseverantes na fé, uma vez que é o único meio de obter a remissão de nossas
faltas. Vê-se bem que os maiores atos da humanidade não são nada sem ela (a fé),
visto que não são senão esses atos que nos unem ao espírito. É pela fé única em
Jesus-Cristo que somos salvos; é por ela somente que fechamos a goela do leão; é
por ela que temos a inteligência, a esperança e a caridade, que é o centro de
todas as virtudes: sem ela nada temos.
Meus irmãos, Assim que Adão foi perdoado de seu crime, pela pura misericórdia do Eterno, pela bênção que lhe deu, assim como à companheira, Deus lhe disse: "Adão, realiza tua obra e opera com ela uma posteridade de formas particulares, nas quais enviarei um ser espiritual semelhante ao teu." Adão operou, então, em conformidade com Eva, a forma de seu filho Caim, com um desvelo excessivo dos sentidos de sua matéria; o que tornou essa posteridade suscetível de todos os flagelos da justiça eterna. Esse nome que Adão deu a seu primeiro filho, Caim, que significa "filho de minha dor" profetizava a grande dor que esse filho lhe faria experimentar logo depois por sua grande prevaricação. A ordem que Deus deu a Adão, ao separar-se dele, nos faz ver que Deus o havia feito depositário de seu seminal reprodutivo, do qual ele não poderia abusar sem crime, como farei ver. Dividimos o corpo do homem em três partes, a saber: em sólido, dado a
mercúrio, ou aos ossos; em sangue, dado ao enxofre; e, em sal, dado à carne. O
ser espiritual Divino encerrado nesse corpo preside não somente os movimentos
dessa forma, mas também a preservação das essências que o compõe em sua pureza.
O sangue é composto de seis glóbulos linfáticos brancos, que são da mesma
natureza que o seminal reprodutivo, com a diferença de que eles são muito mais
soltos que aqueles da medula dos ossos e do seminal; onde vemos reaparecer ainda
o número ternário: a medula, o seminal e a linfa. Os seis glóbulos conservam sua
cor branca, até que tenham formado sua união circular com aquele do centro que,
contendo em si um veículo eixo fogo central contido no envoltório do enxofre,
comunica, desde o instante de sua união com os seis glóbulos brancos linfáticos,
a cor vermelha tal qual a do sangue. Essa cor é, ela própria, um composto de
três cores: o branco dado à linha, o amarelo dado ao enxofre, servindo de
invólucro ao veículo, e o veículo eixo fogo central, ou fogo incriado, que é da
mais bela púrpura. Observai, rogo-vos, meus irmãos a perfeição desse glóbulo por seu número;
como o círculo, ele não tem valor senão por seu centro, que, como o sabeis, se
divide em seis raios. Ora, do mesmo modo, essa divisão não pode se fazer senão
pelo centro, que é o gerador, o sustentáculo e a vida do círculo, assim como o
glóbulo do centro comunica sua cor, o movimento e a vida aos seis outros, dos
quais estariam privados sem sua união. Sabemos que Deus não empregou senão seis
pensamentos para a criação deste universo, e que consagrou o sétimo. O que teria
ocorrido com todo o universo sem a bênção do Eterno? Ele teria permanecido sem
vida. Igualmente, os seis glóbulos linfáticos são desprovidos de vida, privados
da união de seu setenário que lhes comunica o calor, o movimento e a vida. Vamos mais longe. Este universo, concebido pelo pensamento do Pai, a vontade
do Filho e a ação do Espírito Santo, unamos esse número inefável 3 com os
sete pensamentos que Deus empregou para a criação deste universo: teremos o
número 10, dado à Divindade. Do mesmo modo, uni o número setenário dos
glóbulos compondo um glóbulo sangüíneo com os três princípios, ou cores, o
branco dado à linfa, o sangue ao enxofre, formando o envoltório do veículo, e o
veículo púrpura. Adicionai esses três números, 3 com o número setenário:
tereis o número denário, 10, dado à Divindade. Essas provas, que todo
homem que tem olhos pode verificar por si mesmo e que temos mil vezes observado,
devem te convencer, oh! homem!, que o Eterno colocou sua imagem nas menores,
como nas maiores partes da forma, para que todo homem tivesse sem cessar, diante
de seus próprios olhos, de sua forma, a prova convincente da existência de um
Deus vingador e remunerador. Não há nenhum ser sob o céu que possa duvidar da
existência dessa grande Divindade. O próprio demônio está convencido disso, e
não tem o poder de por em dúvida esse fato a qualquer ser que seja. Todo ser espiritual, seja bom, seja mau, possui o pensamento, que a própria
Divindade não lhe pode suprimir. O pensamento é, certamente, sem extensão; ele
se desenvolve e aumenta tanto quanto quer; percorre todas as belezas da criação,
engendra seres de toda espécie e os faz existir, os faz agir. Ora, as faculdades
do pensamento não são outra coisa do que a semelhança inefável da fonte Divina
de onde emanam. O Eterno, sendo pensante, e existindo necessariamente por si
mesmo, transmitiu a todos seus filhos sua semelhança, pois vemos que o
pensamento de cada ser pode engendrar: assim como Deus criou os seres. A
Divindade lhes dá a existência dando-lhes leis, e o pensamento lhes dá a
existência pelas dimensões que lhes dá; a Divindade os faz agir, o pensamento do
mesmo modo faz agir os seres que gerou. A semelhança do pensamento do homem com
a Divindade é perfeita. A diferença que existe é que Deus, sendo todo poderoso,
não pode ter nenhum pensamento que não tenha sua realização; ao passo que o
homem, sendo um ser limitado, não pode realizar senão um pequeno número de seus
pensamentos. Mas enquanto ele tiver o pensamento, como qualquer outro ser, terá
sempre dentro de si uma prova convincente da existência de um Deus. O ser mais
perverso da terra pode, pela insinuação do mau demônio, dizer que de modo algum
existe Deus, mas, no mesmo instante que o diz, passa nele um pensamento que lhe
prova a existência necessária desse ser Divino, que imprimiu nele mesmo, em sua
alma, caracteres indeléveis. Todo mau pensamento do homem pode, pois, se reduzir
a dizê-lo, mas não há ninguém neste universo que possa vir a crê-lo, porque
seria necessário para tal que pudesse destruir seu pensamento; coisa impossível
a todo o ser emanado, uma vez que, destruir o pensamento, é destruir o próprio
ser espiritual; ora, nenhum ser eterno de sua natureza pode se destruir. Ele
pode tornar-se bom ou mau, mas não destruirá jamais seu pensamento, ou sua
faculdade pensante. É sobre esse pensamento que o Eterno opera e operará sem cessar. Se o
pensamento é bom, ele ali manifestará sua glória e, se ele é mau, ali
manifestará sua justiça, uma vez que tudo que se afasta de Deus está no
sofrimento infinito da privação. Deus sendo a própria luz, nenhum ser qualquer
pode participar da luz senão na medida em que se uniu a Ele. Todo o ser torna-se
tenebroso no momento em que se afasta dessa luz; visto que essa luz sendo
necessária para a felicidade, a vida e a proteção de todo o ser, as trevas não
fazem senão a infelicidade, a morte e a destruição das faculdades de todo o ser
que teve a infelicidade de se separar dela. Todo ser tem em si um fogo Divino,
desde sua emanação suscetível de estabelecer comunicação com essa luz eterna.
Esse fogo é a fé, que não é outra coisa senão a união perseverante do pensamento
do ser particular com o Ser todo-poderoso. É a resistência desse pensamento bom
ao choque contínuo do mau pensamento que forma o que chamamos fé. É por esse
fogo Divino que nos unimos à luz eterna, do qual resulta necessariamente a vida
de nossa alma e de nosso corpo. Separar-se desse fogo é cair nas trevas que não
são senão a desgraça daquele que ali mergulhou, visto que essas trevas não
contém em sua essência nenhum princípio de felicidade, de satisfação, nem de
realidade física. Elas não são todas senão ilusão, senão erro e mentira, e não
produzem senão a infelicidade eterna daquele que se deixou seduzir, porque o
verdadeiro bem é Deus. Ora, toda felicidade existindo necessariamente na
Divindade, não pode haver ali (nas trevas) senão infelicidade eterna em tudo o
que da Divindade se separou. Como o dia mais belo é o mais claro, igualmente a noite mais escura é aquela
que tem a maior privação. Se o homem presta atenção, vendo com os seus olhos,
observa durante o dia os objetos da natureza das formas, para a utilidade, a
precisão e a necessidade da manutenção de sua forma. Suponhamos agora que este
homem extirpe os olhos; como poderia distinguir os objetos da natureza no mais
belo dia? Ele estará cego, tropeçará, cairá, morrerá de fome e sede senão tiver
ninguém próximo de si. É o mesmo caso de um homem que faz um mau uso das
faculdades de sua alma. Ela tem olhos mais clarividentes que aqueles do corpo,
que a conduzem na senda da luz. Sua má vontade, o mau uso de seu livre arbítrio,
é o que lhe arranca os olhos da alma e a faz correr às cegas atrás dos objetos
falsos de ilusão e de mentira, e a precipita definitivamente na morte eterna,
que não é senão a separação total da luz. Qualquer homem sob o céu, por mais estúpido, tenebroso ou mentiroso que seja,
não pode duvidar dessas verdades sem dar uma nova prova do que antecipo. É que
ele se separou por seus crimes da luz. Tudo o que ali contém será igualmente
convencido que Deus, sendo a unidade existente necessariamente por si mesma,
contém em si a plenitude de todos os seres; que cada um desses seres tem suas
leis que tem uma relação com o ser necessário, uma vez que fora dele nada
existe, e, por outro lado, o nada é também impossível, como a não existência do
ser. Todo o ser tendo, pois, necessariamente sua relação absoluta com a
Divindade, aquele que está mais unido a ela é o mais venturoso. A felicidade
existindo necessariamente na Divindade, o ser mais desgraçado é aquele que está
mais afastado da Divindade; não que o ser possa algum dia dela se separar,
estando sempre sujeito pela lei da sua emanação do Ser necessário, que lhe serve
de freio, de sujeição e de barreira intransponível a todas as suas operações
nocivas, uma vez que está sempre sob a cadeia da justiça do Eterno se ele for
mau, e sob a lei da liberdade se for justo. Essa liberdade consiste no aumento de suas faculdades por ter feito o bem. Uma vez que seu crescimento é infinito, ele pode, pois, desenvolver toda a liberdade de seu pensamento em um campo tão imenso como as obras do Eterno, sem receio de ser detido, uma vez que eles são infinitos, ao passo que o mau fixa-se na privação, ou no padecimento eterno, uma vez que se ele quer trabalhar sobre qualquer coisa, é preciso que ele trabalhe sobre o nada. Ele não pode, pois, atacar senão as obras do Eterno que são infinitas. Seu padecimento deve, pois, ser infinito, uma vez que não poderá jamais destrui-las nem destruir a si mesmo. Que Deus esteja com vosso pensamento e o nosso, para sempre.
Amém!
Figura dos seis glóbulos do sangue, que tiram o seu movimento do glóbulo do
centro, que encerra o veículo do eixo fogo central, ou fogo incriado.
Meus irmãos, Tudo o que começou adquiriu princípio, e tudo o que foi criado deve terminar.
É um axioma inabalável, geralmente aceito, tanto pelos homens espirituais
Divinos, temporais, como pelos homens materiais temporais. Mas, como a
averiguação é bem diferente, vou vos falar da reintegração das formas, com o
auxílio do Eterno. Já vimos como o número ternário, 3, é o do corpo, por suas três
essências espirituais; o senário, 6, é o de sua divisão, representando
aquele dos seis pensamentos que o Criador empregou para a criação universal
geral e particular. O número novenário, 9, é o da reintegração. No
princípio da produção de um corpo, tal como aquele da formação de uma criança no
corpo de sua mãe, esse seminal reprodutivo nos representa no seu primeiro
princípio a matéria em sua indiferença, as três essências não tendo ainda
nenhuma distinção, e estando em aspecto umas com as outras, sem forma; mas, tão
logo elas estejam na matriz, recebem um movimento que parte do grau de fogo que
ali se encontra, e que é produzido pela ação dos espíritos do eixo fogo central
e dos espíritos elementares que, acionando sobre o veículo da mulher, começam a
trabalhar, modificar e distinguir as essências. No momento em que são
distinguidas, o embrião toma forma; o que ocorre no fim de 40 dias, por um
número de experiências reiteradas, para repetir sempre a toda a posteridade de
Adão o pecado de seu primeiro Pai, cometido na quarta hora do dia, para lhe
repetir sua penitência de 40 dias, sua reconciliação ao fim de quarenta anos, o
que foi repetido por Noé, Abraão, Moisés e definitivamente por nosso Divino
Mestre Jesus-Cristo quando jejuou 40 dias sobre a montanha do Tabor. No
quadragésimo dia, o espírito menor desce no corpo, ou envoltório, ou na prisão,
que acaba de lhe ser feita, e começa, desde este instante, a experimentar um
sofrimento, porque a maior pena que um espírito possa sentir é a de estar
limitado em sua ação. Consideremos um momento a posição desse ser. Ele tem os
dois punhos apoiados sobre os olhos; envolvido no âmnio (a mais interna das
membranas que envolvem o feto), nada em um fluído de corrupção, privado do uso
de todos os seus sentidos espirituais, Divinos e corporais; ele recebe o
alimento pelos abismos de sua forma, submetido a uma tão grande privação que ele
não se agarra à vida senão por aquela de um ser quase tão fraco quanto ele; que
ele participa de todas as suas penas, seus sofrimentos e seus males. Oh! Crime
de nosso primeiro Pai! Eis o justo castigo que tu mereces. A justiça do Eterno
submeteu toda a posteridade de Adão a passar pelas mesmas vias. Consideremos aqui, meus irmãos, que o ser espiritual Divino que está no corpo da mulher está encerrado sob três véus espessos: o primeiro, sua própria forma; o segundo, aquele de sua mãe; e o terceiro, aquele do universo. No momento que sai do corpo de sua mãe, ele não está preso senão a dois véus: aquele de sua forma e o do universo; e, no instante que faz a sua feliz reintegração, não lhe resta mais senão aquele do círculo universal. Eis um belo ternário: o menor, no corpo de sua mãe, 1; o menor neste universo, 2; e o menor reintegrado, 3; o que prova ainda a feitura deste universo, ou os seis pensamentos, pela adição destes três números que dão 6. Em seu primeiro princípio, Adão, revestido de sua forma gloriosa, dominava acima de todo este universo, sem estar subjugado. Por seu crime, mergulhou toda a sua posteridade abaixo da escada que ela ficou obrigada a ascender. O número novenário, 9, é o da reintegração e da destruição, porque
subdivide as três essências que, em seu princípio, não continham senão um número
ternário por sua união: mercúrio, enxofre e sal, 3. Mas como na parte
mercurial existe um misto, visto que tudo o que tem forma é misto, na parte
mercurial se encontram enxofre e sal, 3; na parte sulfurosa se encontram
sal e mercúrio, 3; e na parte do sal se encontram enxofre e mercúrio,
3/9. O que os faz denominar mercúrio, enxofre e sal, é que essas três partes
dominam em cada um desses mistos; mas, no instante em que o homem alcança,
degrau por degrau, a sua formação perfeita, ele organiza e aperfeiçoa o que se
pode denominar vegetação; ele começa a sua reintegração, insensível, antes de
tudo como tinha sido sua formação, até o momento em que, enfim, começa a sua
reintegração inteira pela dissolução ou a divisão das essências. No primeiro princípio, o germe contendo as três essências dá início à
produção da forma. No momento em que o homem nasce, os alimentos das três
essências, 3, lhe dão a vida, e todo o tempo de sua duração aqui em
baixo. Mas, assim que as três essências cessam a sua produção e a vegetação,
elas começam a sua reintegração, 3, subdividindo-se, isto significa que
sua união no primeiro princípio determinou sua produção, sua divisão pela parte
alimentar originou a sua vegetação, sua subdivisão produziu sua reintegração,
porque nenhum corpo dos três reinos, vegetal, mineral e animal, pode subsistir
sem estar, todo o tempo que tem forma, em um desses três estados de produção,
vegetação e reintegração. Entrarei agora na demonstração da reintegração. No momento em que o veículo
eixo fogo central, que formava a vida da forma, residindo no sangue e tendo a
sua fonte no coração (da qual se dará a demonstração anatômica na seqüência),
fez a sua reintegração, desde então, a forma começa a sua reintegração pelo que
segue: A forma do homem contém o germe de uma turba de animais répteis ou de insetos
que começam o seu crescimento pelo trabalho de reintegração, que se faz pelo
úmido grosseiro do cadáver que, por seu movimento, trava combate nos ovários dos
animais rastejantes que existem no cadáver. Os espíritos elementares, agentes
das formas conjuntamente com o fogo terrestre, ou do corpo geral, batendo seus
fogos espirituais, entrechocam os ovários desses répteis, e, por sua reação,
descobrem o envoltório ovário que os mantinha contidos. Esses insetos possuindo
existência em cada uma das três essências, mercúrio, 1, enxofre, 1, e sal, 1/3,
e contendo em si mesmos essas três essências - aqueles que viveram na parte do
mercúrio, 3, aqueles que viveram na parte do sangue, 3, aqueles que viveram na
parte do sal, 3. A reintegração desses insetos dá a cessação de toda a espécie
de aparência da forma do cadáver, o que forma a reintegração perfeita da forma
humana. É pouca a diferença de tempo do crescimento, da produção e da
reintegração desses insetos que chegam aproximadamente à duração da reintegração
da forma humana, o que prova que o número 9, ou novenário, é o da reintegração.
Observemos aqui, meus irmãos, a analogia que o corpo do homem, denominado
"pequeno mundo" tem, com razão, com o universo. Como o universo, ele contém 3
partes: o universal, o geral e o particular; a imagem do universal pelo número
inumerável de fibras que formam sua parte cartilaginosa e que não é possível
calcular, senão enumerando os espíritos do eixo fogo central; o geral, ou a
terra, como ela, ele é triangular. Como ela, ele dá a vida a três gêneros de
seres de forma, como acabado de demonstrar, o que nos representa os três reinos,
vegetal, mineral e animal; como ele, enfim, contém o particular pelo número
inumerável de pequenos vasos capilares sangüíneos, não mais sendo possível de
enumerar esses pequenos vasos senão enumerando as estrelas que compõe o
firmamento. O corpo do homem contém ainda uma correspondência puramente espiritual com o
ser menor que ele contém em privação. É que ele (corpo do homem) representa aos
olhos da forma todo o físico espiritual que se opera sobre a alma espiritual
Divina eterna. Observando-se bem a um, ver-se-á que é o protótipo do outro: a
alma, como o corpo, tem a necessidade de alimento de sua natureza Divina; esse
alimento, tomado com moderação, a mantém à vida, como o corpo; o alimento
envenenado lhe dá, como ao corpo a morte da privação; ela tem suas doenças como
ele, mas não é jamais afetada por aquelas do corpo, que, assim como ela,
participou, pelo mau uso de seu livre arbítrio da doença do corpo; por meio do
qual podemos nos convencer pelos suplícios que tem sofrido os felizes eleitos do
Eterno, cuja alma suplícios que tem sofrido os felizes eleitos do Eterno, cuja
alma desfrutava da contemplação do Espírito Santo e, em virtude disso, estava
nas delícias, no tempo em que se oprimia a forma por todos os suplícios que a
malícia demoníaca pode inventar. A alma desses menores, muito longe de
participar das dores do corpo não tinha deles nenhum conhecimento. Aqueles que,
tendo cometido qualquer crime, sentindo o justo castigo, não sentem os seus
efeitos, ainda que por desígnios bem diferentes em sua alma o suplício do corpo;
ao contrário, o suplício que sua alma experimenta é incomparavelmente superior
àquele de seu corpo. Nesse estado de justiça, a alma não experimenta senão
satisfação, ainda que o corpo sofra e, no estado do justo castigo que segue o
crime, a alma sente incomparavelmente dores mais vivas que o corpo; o que faz
ver a necessidade do castigo da alma, da pena do corpo e daquela do espírito,
para readquirir os conhecimentos que tivemos a infelicidade de perder pelo
pecado de nosso primeiro Pai, uma vez que os conhecimentos não são senão a
recompensa de nossa resignação de suportar os diferentes sofrimentos aos quais a
posteridade de Adão foi muito justamente condenada. É pela mais santa virtude da paciência que se alcança a feliz reintegração de
seu ser espiritual Divino no lugar do repouso, e de sua forma em seu princípio
eixo fogo central. Que Deus conceda a todos nós essa graça. Amém!
Meus irmãos, O Eterno, todo-poderoso criador, cuja potência infinita se estende sobre o
universo dos espíritos e dos corpos, contém em sua imensidade uma multidão
inumerável de seres que ele emana quando quer, fora de seu centro. Ele dá a cada
um desses seres, leis, preceitos e mandamentos, que são pontos de ligação desses
diferentes seres com esta grande Divindade. Essa correspondência de todos os
seres com o ser necessário é tão absoluta, que nenhum esforço desses seres pode
impedi-la; eles não podem jamais, ainda que se esforcem, sair do círculo onde
foram colocados, e cada ponto que percorrem desse círculo, não deixaria de
estar, um só instante, sem relação com o seu centro; e, com forte razão, o
centro não poderia jamais cessar de estar em junção, comunicação e relação com o
centro dos centros. A relação dos centros particulares com o centro universal é o Espírito Santo;
a relação do centro universal com o centro dos centros é o Filho; e o centro dos
centros é o Criador todo-poderoso. Deus, o Pai, criou os seres; seu Filho lhes
comunicou a vida, e esta vida é o Espírito Santo. Podemos aí ver da demonstração
pelo exame das três experiências físicas que vos apresentarei para servir de
demonstração do que acabo de dizer. A unidade, 1, encontra-se nos números 10, 7, 3, 4: ela se encontra em
10, em 7, em 3 e em 4; o que prova que é impossível poder alguma vez
desnaturalizar a unidade, pela impossibilidade de encontrar um número onde a
unidade não esteja, uma vez que ela é a geração, o sustentáculo e o fim de todos
os números; já que após ter percorrido uma quantidade prodigiosa de números, se
terminam por 9, não estão completos, pela ausência de sua unidade que os contém.
Como em 10.000: se, ao invés dos zeros houvesse 9, esse número estaria
incompleto uma vez que demonstraria que pode sofrer uma adição; enquanto a
unidade unida aos zeros mostra sempre a emanação, a base e o complemento dos
diferentes números: 1.000.000... Pode-se aumentar os zeros até o infinito, mas
eles partem todos da unidade, e estão todos contidos pela unidade; o que se pode
ver nos exemplos seguintes: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.
A unidade é aqui o princípio desses nove números, 1; após ele vem 2, onde há
a unidade: 3, onde ela está também; e sucessivamente até 9, onde ela também está
contida. Ora, 9 não podendo fazer um número completo, chega a 10, que nos mostra
a unidade contendo todos os números, como a figura da página anterior. Eis a prova física, matemática, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sabeis que os números são co-eternos. Deus não criou os números; eles existem
de tempos imemoriais nele e é por eles que se fez todos os seus planos de
criação dos diferentes seres. Vedes, pois, meus irmãos, que a unidade geradora é
a imagem do Pai, 1; a unidade que segue todos os números 2, 3, 4, 5, 6,
7, 8, 9 é a imagem do Filho, e porta seu número: 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9/44/8.
Sabemos que através de todos os sábios do universo que o número 8 é o número da
dupla potência dada ao Cristo, assim como terminastes de ver que ele é a vida de
todos os seres que subsistem, tanto dos espíritos como dos corpos, visto que
nenhum ser pode subsistir senão por um dos 8 números que acabamos de ver.
Igualmente, o complemento de todos os números, que é 10, ou (1), nos mostra a
imagem física do Espírito Santo, que contém tudo o que o Pai criou, tudo o que o
Filho dirigiu, e forma desse modo a união eterna, inefável e indissolúvel das
três unidades que compõe a tríplice essência da Divindade sem princípio nem fim,
como podeis observar que a unidade, 1, sendo absoluta e necessária, tem,
sem interrupção, emanado e criado seres, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9; que esses seres
têm sempre sido dirigidos por sua ação direta, seu verbo Divino, seu Filho
querido 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9/44/88, uma vez que ele completa por seu número
todas as ações dos diferentes seres; e que eles estavam eternamente contidos
pelo Espírito Santo, 10, ou, como a figura acima, como sendo o fim, o
sustentáculo e o conservador de todo ser. Essas grandes verdades, cuja demonstração está escrita em toda a natureza,
são os arcobotantes (construção exterior em forma de meio arco, que serve para
sustentar uma abóbada, uma parede), que devem sustentar o Homem de Desejo
espiritual Divino bom em todas as suas operações espirituais temporais. Infeliz
daqueles que se deixam seduzir pelos falsos prestígios dos intelectos
demoníacos, para receber diante dos olhos de sua alma, que são o pensamento e a
vontade, o véu abominável que lhes oculta essas três santas luzes feitas para
serem conhecidas de todo homem! Mas, como a luz dissipa todas as trevas, da
mesma forma as trevas, no mesmo instante em que o ser menor permite que elas
tomem conta dele, dissipam nele toda a luz e o fazem errar como um cego
procurando às cegas algum objeto que possa garanti-lo contra os perigos que o
cercam; igualmente, a alma ofuscada pelo mau uso de seu pensamento procura
objetos espirituais que possam dissipar o medo terrível que o espírito vingador
do crime produz nela. Este terror, esse pavor, o estremecimento que a maior
parte dos homens experimentam na obscuridade, constituem uma imagem perfeita do
estado de sua alma. Esse medo que eles têm de encontrar nas trevas algum ser
destruidor de seu corpo, deve acompanhar a alma daquele que procura nas trevas,
pelo temor que ela possui de encontrar algum ser destruidor da pureza do seu ser
Divino que a conduz à privação da luz eterna que é Deus. Se retirarmos uma grande lâmpada de um homem, que o ilumina e lhe faz ver
todos os objetos circunvizinhos, ele continuará nas trevas durante o tempo em
que se separar dessa lâmpada; sua vista perderá, durante toda a separação, a
visualização dos diferentes objetos. O sol, por exemplo que ilumina os olhos do
homem, lhe faz ver as diferentes belezas da natureza; através dele ele vê as
diferentes belezas das sucessões dos diferentes corpos aparentes; através dele,
se instrui dos diferentes objetos que passam sucessivamente diante de seus
olhos; e quanto mais ele visualiza, tanto mais será instruído da natureza dos
corpos cuja luz mostra as dimensões. Suponhamos agora que esse homem seja encerrado em um horrendo calabouço que o
priva da comunicação do astro solar: o medo diminui conforme o número de dias de
sua privação. Quanto mais tempo ficar encerrado nas trevas, privado da luz do
sol, mais sua vista enfraquece, e mais a lembrança de sua visão diminui; de modo
que, se permanecer um certo número de anos sem ver a luz do sol, é preciso ter
um cuidado especial para reconduzi-lo à luz, para evitar que, ao transportá-lo
bruscamente à vista do sol de meio dia, as membranas de seus olhos, pouco
exercitadas aos movimentos flexíveis que devem ter para estar em comunicação com
este astro, e se encontrando em um estado de tensão, de rigidez e de dureza, e
recebendo um grande número de raios aos quais não conseguem obedecer, e
opondo-se por sua resistência uma nova força a seus raios, eles não dissolvem
enfim, o próprio obstáculo, rompendo-se alguns vasos grossos do corpo e matando
a forma daquele que desejou muito cedo aproximar-se do princípio da vida. A aplicação do que acabo de dizer aos objetos espirituais é simples e fácil.
Temos, sobre o assunto, um grande número de exemplos na Escritura Santa. Quando
Moisés foi procurar a Lei que o Eterno lhe deu sobre a montanha do Sinai, foi
preciso dizer ao povo que ninguém se aproximasse do pé da montanha e que, tanto
homem, quanto animal, seria fulminado. Não é o mesmo que mostrar à Israel, que
ele não tinha mais a visão suficientemente exercitada, suficientemente pura e
limpa, para poder ver os objetos que estavam na montanha? Não é ainda mostrar o
respeito que devia ter por todos os santos objetos que ali estavam, dos quais
ele não devia aproximar-se senão de longe e trêmulo? É, pois, absolutamente necessário usar da maior circunspecção, moderação e
discrição sobre todos os objetos que a Ordem possui e caminhar com a maior
consideração no caminho que conduz ao fim; por que cada senda que ali conduz tem
espinhos, dificuldades e obstáculos que é preciso dissipar, extirpar, afastar.
Ser conduzido ao caminho sem ter desviado esses obstáculos, constitui uma
dificuldade ainda maior para superá-los. Desse modo, a prudência, tão recomendada pelo próprio Jesus-Cristo, deve ser
o alicerce de nossos passos. Um grande número de forças dadas a um general pouco
experimentado não fazem senão aumentar sua derrota. É necessário, antes de lhe
dar um corpo grande, que ele saiba ao menos dominar um corpo pequeno. O mesmo
ocorre com nossa alma: é necessário que ela tenha se exercitado por muito tempo
nos pequenos combates antes de resistir aos grandes; as maiores forças que se
lhe dá aumentam seus combates. Assim, é preciso saber moderar o desejo de
avançar, pelo medo de cair. Vimos que o uso dos alimentos, tão necessários à
vida do corpo, utilizados em quantidades muito grandes, e sobretudo em
convalescença, são freqüentemente mortais aqueles que os empregam. É, pois,
indispensavelmente necessário acostumar pouco a pouco o seu estômago às carnes
antes de fazer grandes refeições cuja digestão é sempre difícil. As diferentes
provas que se deve submeter aos sujeitos para certificar-se de seu desejo,
fidelidade e perseverança são desse gênero. Um sujeito tem hoje um grande desejo e amanhã não tem mais, porque mudou de
pensamento. É, pois, necessário dar-lhe mais tempo antes de admiti-lo, para
saber se possui um desejo verdadeiro. Se possuir, seu desejo aumenta em razão
das dificuldades, e, se não o tem, as dificuldades o aniquilam; o que sempre é
um grande bem: 1º, é um homem de desejo superficial: se tivesse entrado na
Ordem, teria sido um mau sujeito; é, pois, um grande bem que não entre; 2º seu
desejo é verdadeiro, o tempo não faz senão aumentá-lo; 3º, os diferentes
obstáculos que lhe são colocados e que supera lhes darão um mérito ainda maior,
que tem a sua recompensa. Desejo, paciência e perseverança. São três virtudes que rogo ao Eterno de nos conceder a todos e de nos manter para sempre sob sua santa guarda. Amém! Visite:
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