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Humanidade mergulha em nova Idade das Trevas

 

Bons Tempos aqueles...

 

         Há pouco assisti novamente à magnífica série “Cosmos”, de Carl Sagan. Um pouco antes reli a Conferência de Piracicaba, pronunciada por Jean-Paul Sartre em sua visita ao Brasil. Lembro-me dos tempos da faculdade, os debates em torno (por vezes com a presença) de Claude Levi-Strauss, ou quando conversávamos, frequentemente aprendendo mais no boteco à porta da faculdade do que em seus bancos, sobre a “Dialética Negativa” de Hegel e Marcuse (em contraposição ao tratamento do termo “dialética” usado por Schopenhauer, por exemplo).

         Assistíamos a filmes extraordinários (como “Z”, “Amen” e “Missing”, de Costa-Gavras; “Jango”, de Silvio Tendler; “Le Discret Charm de La Burgeoisie”, “Cet Obscur Objet du Desir”, “Um Chien Andalou”, de Luiz Buñuel... Ora, a lista é interminável!) e peças teatrais profundas, comoventes, tocantes: de Shakespeare, de Gogol, de Bernard Shaw, de Ibsen, de Molière... Após filmes e peças (frequentemente em sequência, um filme e uma peça) um chope no Amarelinho enquanto discutíamos a trama, os desdobramentos, o momento histórico em que surgiram e sua aplicabilidade ou não aos valores atuais...

         Confesso que foi o Carl Sagan que, da vastidão do Espaço e do distanciamento no tempo (a série foi primeiramente ao ar em 1976, Sagan deixa saudades...) chamou mais a atenção.

         Relembrando: houve um tempo na Grécia Clássica em que o pensamento humano e a especulação filosófica alcançaram um tão sólido ápice que os mais otimistas acreditavam num progresso contínuo da Filosofia e da Praxis. A onda obscurantista que surgiu nos primórdios do cristianismo silenciou ou matou pensadores e destruiu muito de sua obra. De muitos pensadores da época só temos hoje o seu nome – usualmente nem isso – e, dos mais brilhantes, somente uma pálida amostra. Sófocles, por exemplo, deixou mais de 250 Trabalhos, todos tinham cópias em papiro na Biblioteca de Alexandria (no Egito). Após o ocaso – que durou perto de um milênio – do pensamento livre, conhecemos apenas 3 trabalhos de Sófocles, Autor de “Édipo Rei”. Quanta pesquisa astronômica, médica, mecânica e filosófica em geral se perdeu na onda obscurantista dos primeiros séculos do Cristianismo até o Renascimento... Quanta gente boa morta com requintes de crueldade “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” ao longo de um milênio...

         O pensamento humano conheceu momentos de extraordinário avanço, diante de boas condições históricas, desde o Renascimento Europeu até as primeiras viagens exploratórias ao Cosmos capitaneadas pela NASA e pelo Cosmódromo de Baikonur. Embora com alguns momentos de retrocesso, sempre houve uma cultura ou civilização a favorecer mais a Razão e a pesquisa científica. Numa Europa ainda varrida pelo obscurantismo cristão a Holanda se sobressaiu como o lugar mais arejado e propício ao livre pensamento durante os séculos XVI e XVII. Quando o nazi-fascismo silenciava muitos pensadores e destruía seu trabalho havia refúgio para o livre pensamento na (então) URSS, nos EUA e Inglaterra. Nos porões, criminosos internacionais contavam os lucros de suas pilhagens e especulações enquanto planejavam cuidadosamente uma nova onda de obscurantismo, desta vez mundial, planetária. O século XX termina com uma nota triste: o capital venceu a guerra de classe contra o ser humano e se impõe silenciando ou aniquilando o livre pensador. Até quando? Só o Futuro tem a resposta. Se a humanidade sobreviver – ou para a humanidade sobreviver – o capital deve ficar sob o controle das gentes, deixando de controlá-las. 

 

Domínio dos Bancos e Grandes Corporações: a Era da Mediocridade

 

          A casta sacerdotal do novo obscurantismo, os “economistas”, em geral se opõe à expressão “capital especulativo”, preferindo “capital financeiro”, o que dá no mesmo e o ser humano perde feio. Mas é este capital, trabalho humano morto, cristalizado em aplicações financeiras, que comanda os seres humanos vivos. A casta dos especuladores foi guindada ao ápice do poder político gradativamente, calculadamente.

         Em fins do século XIX até meados do XX o maior drama humano no mundo era derivado do problema central: a propriedade privada dos meios de produção. No regime vigente, os que mais trabalham ganham pouquíssimo e os que ganham mais, em geral não trabalham. Todos os livres pensadores criticam acremente, desde sempre, e lutam contra a exploração do homem pelo homem na dimensão da produção.

         Aquele problema foi sanado – ainda que de maneira precária, limitada a poucos países e de pouca durabilidade – após a Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917, que levou uma Rússia movida a arados de tração humana à condição de Superpotência em apenas 60 anos.

         A Nova Onda de obscurantismo nasce nas vísceras do capital e se espalha pelo mundo: o poder de emissão e circulação de moeda sonante deixa de ser exclusividade do Estado Nacional e se transfere a entidades privadas (como o “FED” estadunidense que, de “federal” só tem mesmo o nome) ou, como no caso brasileiro, “autônomas” e dirigidas por gente escolhida pelo chamado mercado de capitais. O gerenciamento de Bancos Centrais (como o FED e o BACEN) feito por gente pessoalmente interessada na ciranda especulativa explica à perfeição os motivos que conduzem à propaganda contrária ao crescimento nacional – a própria palavra “nacional” está esvaziada neste momento histórico, aliás –: os especuladores se sentem mais seguros em suas atividades improdutivas se os setores produtivos da sociedade, de resto sob seu controle direto ou indireto, reduzirem o ritmo de suas atividades.

         É impressionante a sinceridade dos sacerdotes do capital especulativo atualmente. Num dia eles “analisam” a situação nacional e dizem coisas como “nas atuais condições não é seguro que o país cresça mais do que 2 ou 3%...” No dia seguinte as emissoras de televisão e toda a mídia obediente ao capital especulativo estampa em manchetes: “país deverá crescer menos de 3% no próximo ano”.

 

Para quem não é seguro o crescimento nacional?

 

Mascarado sob o título de “investidor” (da mesma maneira que a especulatina geral é mascarada sob o título de “mercado”, aliás), não é seguro para o especulador (que prefere uma economia frágil e engessada a uma economia forte e dinâmica. Um país como o Brasil precisaria (e tem condições de) crescer a ritmos superiores a 15% ao ano para propiciar melhores condições a todos os seus cidadãos. Está proibido de fazê-lo pela casta dominante – os políticos a soldo do grande capital especulativo “orientados” pelos sacerdotes do capital especulativo.

         Produzem-se “crises”, por exemplo, a fim de ampliar a quantidade de impostos roubados dos trabalhadores e desviados ao capital especulativo que conta ainda com sofisticados mecanismos que lhe permitem ganhar sempre. O que se requer do jogador ou especulador (sempre intitulado “investidor” embora não o seja) é meramente estar a par da onda que se está vivendo. Na onda de alta deve-se jogar de uma maneira. Na baixa, de outra. O especulador ganha sempre e, quem perde – sempre – é quem produz, quem trabalha.

 

As idéias dominantes

 

         Há tempos sabemos que as idéias seguem um fluxo próprio, todo seu. Aqueles que controlam a maior quantidade de trabalho humano morto (na forma de capital ou bens) são os ditadores das idéias dominantes numa determinada época.

         Então, de que servem as viagens espaciais ou a pesquisa filosófica ao reles utilitarismo dos donos do poder ou seus sacerdotes? Jovens não são incentivados – que digo? Hoje mais que nunca são violentamente reprimidos – se interessar pela pesquisa abstrata. Centros de Pesquisa fecham; verbas são cortadas; várias profissões somente seguem existindo devido ao idealismo e abnegação daqueles que a elas se dedicam, etc. Em tempos de crise – sejam crises provocadas por fatores naturais ou externos ao seres humanos como as pestes ou longas estiagens, sejam crises provocadas pelos sacerdotes do capital especulativo, como a quebra de bolsa de Nova Iorque em 1929 ou a “crise econômica estadunidense” de 2008 – as pessoas tendem a se devotar mais à busca concreta de soluções materiais imediatas a seus problemas cotidianos; debruçando-se mais sobre os valores práticos do cotidiano, distanciam-se das abstrações intelectuais. Desta maneira os especuladores ganham duplamente: lucram mais dinheiro pois sendo os geradores da crise sabem como devem fazer para lucrar mais no período (dia desses um outro sacerdote do capital especulativo, num raro rasgo de sinceridade, falou num programa de “análise econômica” televisivo: “toda a crise traz ótimas oportunidades”) e, em segundo lugar mas talvez principalmente, limitam ou, no limite, eliminam os adversários de seus sacerdotes em seu poder de atuação.

         Em tempo não tão remoto ainda havia espaços para a produção intelectual alternativa, de filmes, livros, peças teatrais, etc. Havia mais incentivo ou menos repressão à pesquisa cientifica ou filosófica abstrata.

         Para tristeza dos mais sensíveis vemos um ciclo muito similar ao milênio de trevas que se seguiu ao nascimento do cristianismo. Até mesmo a ilogicidade de se considerar algumas alegorias escritas como metáfora há milênios no Oriente Médio como “teses científicas”. Esclareço: nada contra a fé, pelo contrário! Mas tudo contra a invasão indevida de um espaço em outro. Chamar a teoria criacionista – linda como metáfora e até mesmo operacional há 5.000 anos, quando “o mundo” era um bolinho em torno dos rios Tigre, Eufrates e Nilo – de “Criação Inteligente” e tentar dar a isto ares de análise científica é um erro grosseiro contra a própria fé – que carece da necessidade de “comprovações científicas” – e, o que é muito pior, confunde e embaralha mentes despreparadas utilizando um linguajar científico para negar as descobertas da ciência.

         Naturalmente, tudo o que seja potencialmente limitador do raciocínio livre, filosófico ou científico, é incentivado poderosamente pelos donos do poder e o que se volta contra seus interesses é violentamente combatido ou reprimido. Por um lado, conforta ao livre pensador saber-se em boa companhia: sempre se perseguiu buscadores da verdade neste mundo. Por outro, é entristecedor demais vermos tão brutal retrocesso que chegamos mesmo a sentir saudades do tempo em que visitar Observatórios ou Planetários era um programa tão simples quanto elegante, tempo em que trabalhar para aprimorar nossos contatos com outros seres inteligentes – terráqueos como baleias, golfinhos, chimpanzés e gorilas ou buscar formas de inteligência extra-terrestre – era, como nobre propósito, incentivado. Tempo em que “Grandes Pensadores” eram Jean-Paul Sartre, Herbert Marcuse, Gilberto Freyre, George Woodcok, Wilhelm Reich, Georg Lukács, Lucien Goldmann... Tempo em que viveu Carl Sagan, pessoalmente empenhado nos projetos da NASA e sonhador divulgador científico a despertar toda uma geração. Não viveu para vivenciar este brutal retrocesso ao obscurantismo. Morto em 1996, presenciou quiçá os primórdios desta Era da Mediocridade cujos sinais já eram perceptíveis. Se em 1976 era possível subvencionar uma viagem à Lua com 1/10.000.000 avos da verba armamentista dos EUA hoje a fração seria ainda menor mas o interesse dos governos medíocres, lacaios dos bancos e grandes corporações, é hoje nulo. Mais importante para eles se tornou a subvenção a pesquisas pseudo-científicas em torno de coisas ilógicas como “Criação Inteligente” do mundo. Se a realidade – inclusive de viagens espaciais exploratórias – aponta em direção diferente, censura-se a realidade...

COSMOS COLLECTOR'S EDITION

Cosmos, Episode 1; Shores of the Cosmic Ocean
Cosmos, Episode 2; One Voice in the Cosmic Fugue
Cosmos, Episode 3; Harmony of the Worlds
Cosmos, Episode 4; Heaven and Hell
Cosmos, Episode 5; Blues for a Red Planet
Cosmos, Episode 6; Travellers' Tales
Cosmos, Episode 7; Backbone of the Night
Cosmos, Episode 8; Travels in Space and Time
Cosmos, Episode 9; Lives of the Stars
Cosmos, Episode 10; Edge of Forever
Cosmos, Episode 11; Persistence of Memory
Cosmos, Episode 12; Encyclopaedia Galactica
Cosmos, Episode 13; Who Speaks for Earth?

 

Enquanto isso, no Brasil...

 

         Lula da Silva foi um importante líder trabalhista em fins da década de 70. Em 1989 era quiçá uma alternativa interessante de poder no Brasil. “Não por ele, que sequer educação formal tem”, dizíamos em campanhas, “mas pelas pessoas de quem se cerca e que seguramente serão seus ministros”. Sem mencionar a plêiade de grandes intelectuais humanistas que o cercavam, para não ferir susceptibilidades, chega ao poder um Lula famoso pela bebedeira, pelo analfabetismo e pelo incentivo à corrupção, rompendo – em pelo menos um caso por telefone – com os grandes intelectuais que o cercavam e loteando o poder entre os fascínoras de sempre. Apodrecendo moralmente, a evolução patrimonial da família e dos amigos de Lula da Silva é impressionante. Lula da Silva é hoje um dos homens mais ricos de um dos países com maior pobreza no mundo: dono da maior rede de comunicações telefônicas privadas do Hemisfério Sul, com ramificações na Internet e diversificando-se em latifundiário Lula da Silva segue falando aos pobres o que os pobres gostam de ouvir enquanto governa com e para os ricos que o elegeram.

Mais sobre Lula da Silva aqui

 

E em Israel?

 

         Menos de 1/10 do valor gasto em bombas, mísseis e tanques para matar mulheres, velhos e crianças em Gaza seria suficiente para criar um Estado Palestino e assegurar a Paz no Oriente Médio. Mas isso não interessa aos líderes políticos de turno que, de olho nas próximas eleições, optam por um gesto “de força”. Assim, para favorecer uma meia-dúzia de líderes políticos venais e corruptos, uma das Forças Armadas mais poderosas do mundo, com o apoio irrestrito de seu maior aliado, o país mais rico do mundo, já mataram quase mil muçulmanos na Palestina. Em sua maioria mulheres e crianças. O fim desta loucura é absolutamente imprevisível.

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 09/01/2009

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