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De quem é a culpa?
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Por que é que esta pergunta incômoda surge, sempre que um casal se separa? Nos tempos em que vivemos, de carências generalizadas, é absurdo culpabilizar qualquer dos ex-cônjuges pela separação que se dá, o mais das vezes, efetivamente por falhas mútuas na avaliação inicial do parceiro e, no limite, ruptura no limiar de tolerância de ambos à radical alteridade do cônjuge em determinado momento ou, em outras palavras, por incompatibilidade pura e simples, mais cedo ou mais tarde - e quanto mais cedo melhor! - detectada. Por que motivos deveria ser ela a culpada, se em nome do relacionamento fez tudo quanto estava ao seu alcance, chegando mesmo a sacrificar anseios de infância para tanto. Ora, então a culpa é dele: não soube reconhecer seus esforços, sua tentativa sincera de transformação, de disponibilidade humana, de entrega total, quiçá nunca a amou de verdade embora sempre dissesse que sim... Ele é o grande canalha, o grande culpado, então! Mas, de novo, por que é que ele tem de ser culpabilizado se desde o primeiro momento se esforçou ao máximo para satisfazer todas as suas demandas, seus anseios consumistas, sacrificando muito do que desejava ter ou fazer para que ela chegasse a ser feliz? Acompanhou-a ajudando-a em praticamente todas as atividades, fez com que ela crescesse humanamente, entregou-se com carinho sincero e profundo buscando fazer, enfim, tanto bem a ela quanto ela o fez a ele. Sim ele também se esforçou, se sacrificou bastante. Aqui notamos o primeiro problema; muito sacrifício (sacrum faccere, tornar sagrado) num mundo basicamente profano... Um "belo" dia, com todo o cortejo de dores que sempre envolvem uma ruptura a este ponto, ambos reconheceram que estavam juntos mais por carências afetivas mútuas - coisa muito comum, aliás - que propriamente por aquele sincero e profundo Amor de dois corações apaixonados que se vêem completados um no outro nas dimensões física, emocional, intelectual e anímica - o caso analisado trazia única e exclusivamente a completude física, ficando as dimensões emocional, intelectual e anímica de ambos "solteira", por assim dizer. Não havia, dada a radical diferença de aspirações e anseios um do outro, como prosseguir com o relacionamento sem ampliar multiplicando as mutilações, as concessões cada vez maiores que afastavam cada dia mais cada um do seu próprio ser em busca da construção de seres diferentes, disformes, deformados. Só se pode falar em Amor pleno e recíproco se todas as esferas ou dimensões que compõem o humano estiverem em sintonia. Aquele amor total, que toma todo o ser, não pode, obviamente, comportar qualquer tipo de coercitividade ou culpa. Tanto a coerção quanto a culpa são antitéticas ao que no ser humano existe de erótico, de lúdico e de onírico. São antitéticas ao amor verdadeiro, portanto. Fato é que aquele relacionamento, complicado como fosse desde o início, trazia algum grau de completude e satisfação a ambos em diversas esferas, de maneira que a separação é, de fato, dolorosa para ambos. A esta dor, dada a "lógica" que rege a maioria das cabeças em nosso mundo, tem-se de somar agora a dor da culpa. Acontece que o discurso da culpa é o discurso daquilo que o psicanalista Wilhelm Reich chama com toda a propriedade de "Peste Emocional". Culpado é este sisteminha de aviltamento e cretinização em que estamos enfiados e que nos impele, muitas vezes, a escolhas infelizes. Contudo o sistema é poderoso; criticá-lo, jogar nele o peso merecido da culpa - se é que mesmo aqui faz algum sentido falar em culpa... - resulta exercício demasiado complexo. Mais simples e direto, do ponto de vista da mentalidade da gente simples do povo, é culpabilizar um dos dois que se separam, ou mesmo um ao outro. Racional, do ponto de vista do humano, numa situação de ruptura, é extrair - por cima de toda a dor, de todo o sofrimento ligado a qualquer processo desta natureza - lições, crescer em aprendizado, em conhecimento do humano real, concreto diante de nós mesmos, percebermos que, ou amamos o outro como ele é ou não e ponto final. Absurdo querer transformar as pessoas em algo que nem elas jamais cogitaram vir um dia a ser. Mais absurdo ainda querer, de maneira auto-coercitiva, transformar-se para agradar a outrem. Absolutamente ridículo, totalmente mesquinho que se fique buscando "o grande culpado", "o grande canalha", entre os dois! O tempo contemporâneo é o primado do equívoco sobre o unívoco e se houve equívoco, sendo o casal incapaz de completar as esferas física, emocional, intelectual e anímica ou erótica, lúdica e onírica um do outro, não há culpa nem culpados. Há um equívoco colocado e agora ambos estão mais maduros e fortes para um novo relacionamento. Se se puder preservar pelo menos alguma amizade, estaremos bem próximos de uma situação ideal.
Lázaro Curvêlo Chaves - 30 de agosto de 2001
Sociologia, Filosofia, Psicologia e Ensaios Críticos
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