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Terra arrasadaRio – Niterói“Caía a tarde feito um viaduto, E um bêbado trajando luto, Me lembrou Carlitos...” Elis Regina – O Bêbado e a Equilibrista
Foi por volta de 1973 ou 1974. O desabamento do Viaduto Paulo de Frontin, na Tijuca, por pouco não me pegou que aquele era o meu caminho para a escola! Uma gigantesca corrente de solidariedade fraterna perpassou toda a sociedade brasileira: era necessário providenciar analgésicos, gelo, gente... Foi uma comoção! Até os loucos e ébrios passaram a vestir-se de preto e passar em silêncio por ali... Um ou dois anos depois Elis Regina lançava “O Bêbado e a Equilibrista”. Cidade Maravilhosa, praticamente pleno emprego, baixíssimos níveis de criminalidade, caminhávamos pelas ruas tranqüilamente, íamos ao cinema ou teatro sem medo. À Biblioteca Nacional pelo menos uma vez por semana e a Niterói sempre aos domingos. Cidade simpática e amiga, a meros cinco minutos do Rio via aerobarco, a Cidade Sorriso sempre famosa por suas praias limpinhas na Baía de Guanabara, aparecia no noticiário nacional sempre que se inaugurava uma atração turística ou para enfatizar mais um fluminense ilustre no campo das letras, esportes ou artes em geral. Há 10 anos saía de lá, em grande medida, por causa da crescente onda de violência urbana. Vejo pela telinha o que sobrou de minha terra com tristeza: onde outrora ficavam grandes redes de lojas e supermercados hoje são locais de tráfico ou de comércio ambulante. As ruas, esburacadas, não tornam em nada melhor o tráfego de automóveis velhos e ônibus também de meados da década passada. Jardins e monumentos abandonados. O rosto das pessoas cada vez mais preocupado e o noticiário enfatizando o surgimento de novas favelas, o crescimento de antigas ou de guerras entre quadrilhas...
A Rodoviária de Ribeirão Preto
Quando cheguei por aqui fui convidado, entre outros pontos, a ministrar aulas na Universidade de Franca. Há uns 30 anos desisti de aprender a dirigir automóveis, que estava sendo um perigo para mim e para os outros atrás de um volante – tem muita gente que segue dirigindo, sem esta consciência... – portanto viajo de ônibus. A caminho de Franca ficava uns minutos na Rodoviária de Ribeirão Preto à espera do “Cometa” que me levaria ao destino final. Já lá se vão 10 anos, mas naquela rodoviária, muito simpática, cheguei a comprar o “Clarín”, o “Le Monde”, “The Washington Post”... Lojas abarrotadas com CD’s, camisetas, novidades diversas, restaurantes árabes, italianos e regionais... Há pouco passei por lá novamente a caminho de Goiânia. Lojas fechadas, jornais só mesmo os de S. Paulo e olhe lá, não há mais restaurantes, centenas de ambulantes... Aquela Rodoviária, outrora próspera, está um bagaço após esta última década. O retrato do neoliberalismo tucano-petista está inscrito naquela rodoviária de um país governado pelo PSDB e uma cidade governada pelo PT...
Congresso Nacional
Enviei uma mensagem a alguns senadores e à Presidência da República: “se o Palácio do Planalto entope o Congresso Nacional com Medidas Provisórias, impede a implantação de uma CPI investigativa, se estipulam as prioridades de votação e impõe quem é e quem serão os presidentes das duas Casas (senado e câmara federal), para que o Legislativo?” Como parlamentarista, considero um descalabro que o Executivo legisle! Pode dar à grande massa a impressão de que jetons e gastos com as Casas Legislativas seja uma economia possível... Recomendo um pouco mais de cuidado no trato destas coisas. Mas estou seguro de que esta política ilógica não poderá ir muito longe.
Terra arrasada
Por toda a parte do Brasil se vê o mesmo quadro. O que funcionava bem ou mais ou menos de 10 a 50 anos para cá encontra-se hoje sucateado, abandonado, desfeito. Quem deseja criar algo novo esbarra na mesma dificuldade de quem luta para manter o que já estava consolidado: a mudança da política econômica brasileira desde Collor de Mello e FHC até Lula só tem beneficiado banqueiros e o grande capital especulativo internacional. A produção, particularmente a produção nacional, é cada vez mais penalizada. Isso definitivamente não pode durar para sempre. O povo brasileiro já trabalha cinco meses em cada 12 para pagar impostos que vão para juros e juros de juros. Além de estar cada vez mais difícil a captação de recursos por meio de trabalho honesto, este ainda paga o lucro de quem já tem muito. “Veias abertas...” É como se pacientes terminais de uma UTI estivessem transfundindo compulsoriamente seu sangue para corpos saudáveis de gente jovem e sadia...
Lázaro Curvêlo Chaves - 29 de maio de 2004
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