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Jaime Pinsky 

Nos anos 60 o sentimento anti-americano levava numerosos jovens a não tomar coca-cola, não comer cachorro quente e evitar o próprio cinema americano. Exaltava-se o nosso guaraná, o sanduichinho de pernil acebolado e o cinema francês, ainda mais que este chegava com a figura adorável de Brigitte Bardot... Tinha-se a certeza de que o mundo marchava para o socialismo, que o capitalismo não chegaria até o final do século XX, que camponeses e operários se rebelariam e, sob a orientação dos estudantes revolucionários, particularmente os de História (pois estes conheciam o processo histórico e tinham a função de revelá-lo) tomariam o poder para instalar a ditadura do proletariado, primeiro passo para a criação de uma sociedade igualitária.

A utopia alimentava os sonhos e a imaginação: afinal, depois de milênios de desigualdades e exploração o mundo estava quase maduro para estabelecer justiça social. E nós, jovens privilegiados, teríamos a honra de ser a geração destinada a estabelecer relações de produção em que a dignidade substituiria a humilhação dos pobres e a justiça deixaria de ser uma palavra vã, utilizada por rábulas espertos, para nortear uma sociedade igualitária.

O final da historia todos sabemos. Nossos modelos, seja a União Soviética de Stalin ou a China de Mao, ou mesmo o Vietnã de Ho Chi Min e até a Albânia de Enver Hoxa (acreditem, havia quem nos garantisse que a luz vinha da Albânia! E muitos acreditavam) desabaram ou se transformaram a ponto de não poderem ser reconhecidos, como nos mostra, ironicamente, o imperdível filme alemão Adeus Lênin.

Vencido o inimigo comunista, em todas as frentes (menos naquela ilhota ao lado da Flórida, talvez) o capitalismo pôde mostrar novamente sua face mais selvagem (novamente, sim; quem não acredita leia sobre a Inglaterra no início da Revolução Industrial). Conquistas obtidas ao longo de décadas de luta foram retiradas dos trabalhadores dos paises mais ricos do Ocidente, e a globalização encarregou-se de fazer com que as restrições alcançassem quase todas as nações do Planeta. A data da aposentadoria se aproxima, cada vez mais, do momento em que a doença de Alzheimer toma conta dos nossos cérebros; o aumento de produtividade não implica em aumento de salários ou em lazer de qualidade para o trabalhador, mas em expansão da empresa; a ampliação física do ensino público tem tido como conseqüência um grande rebaixamento na qualidade, a ponto de, no Brasil, as pessoas concluírem 11 anos de estudo sem entender um texto, nas raras vezes em que se aventuram a lê-lo. Como decorrência disso tudo o acesso aos bens culturais é entendido como o direito a assistir televisão, ouvir cantores bregas e tomar cerveja em botequins.

A ausência de utopias nos leva a um consumismo desvairado e compulsivo: sentimo-nos infelizes, verdadeiramente infelizes, se não damos conta de comprar tal ou qual objeto que as pessoas de nossa relação possuem e transformamos nossa incapacidade de comprar em incapacidade de viver, de amar, de ser feliz. Temos certeza de que nossa felicidade está, em grande parte, condicionada à capacidade de adquirir, ter e usar, não de desfrutar. Nossa impotência metafórica (pois sempre haverá algo que não conseguiremos adquirir) transforma-se em impotência funcional. Também esse problema tentamos resolver comprando comprimidos milagrosos que garantem nosso funcionamento perfeito com parceiras perfeitas, de beleza comprada em salas de cirurgia e em sacrificadas sessões de malhação.

 

E o triste é que o modelo vem daquela nação que já foi chamada pela imprensa brasileira como nossa “grande irmã do Norte”, os Estados Unidos.

Quem imaginaria, 30 ou 40 anos atrás, uma situação como a que vivemos? Tempos em que aquela potência, a hegemônica, aquela que imaginamos poder vir a ser a Roma moderna, incorporando como seus cidadãos todos os deserdados do mundo, transformando o Planeta num enorme conjunto de estados federados em torno dos ideais de democracia, tolerância religiosa, pluralidade política, respeito às minorias, multiculturalismo, esses mesmos Estados Unidos da América fecharam-se para dentro, rejeitam o pensamento avançado de suas grandes metrópoles (em Los Angeles, Chicago, Boston, Nova York, Kerry venceu) e reelegem um presidente de vista curta e horizonte limitado, no mínimo inadequado ao papel que terá que exercer...

Antes que eu me esqueça, fundamentalismo, qualquer fundamentalismo, não é utopia. É pura mistificação.

 

Jaime Pinsky é historiador, professor titular da Unicamp, organizador do livro “Faces do Fanatismo”, entre muitos outros publicados.

pinsky@editoracontexto.com.br

Artigo originalmente publicado na Folha de S. Paulo, 8 de novembro de 2004

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