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Ensaio sobre "Vidas Secas"



   
Em nenhum outro romance Graciliano é mais humano e presente do que em Vidas Secas. Aproveita-se da narração em terceira pessoa para marcar o plano literário e não deixar dúvidas quanto à sua presença, ao descrever a vida de uma família de sertanejos fugitivos da seca, sem destino e sem outras perspectivas para além da sobrevivência e do eterno retorno. Às vezes, ele aparece do lado de fora dos personagens comentando a vida de Fabiano, de Sinhá Vitória, dos meninos e da cachorra Baleia, às vezes aparece confundindo-se com os pensamentos de um ou de outro personagem e às vezes como a consciência coletiva do grupo.

    Esse comando de ação perpassa todo o romance, retalhado em capítulos interdependentes entre si, mas autônomos do ponto de vista literário. O livro não se compõe de uma narrativa só, mas de várias narrativas nucleares seccionadas, em que os fatos terminam em si, não surgindo para ocupar lugar numa cadeia de acontecimentos com um princípio, um meio e um fim. Os dramas focalizados não evoluem em qualquer sentido, mas acontecem diante do leitor e se exibem em sua inteireza, dando a idéia de um cenário completo.

É aí que ele dissolve qualquer excesso retórico em favor de uma linguagem seca, áspera e poética, quase toda produzida em monólogos interiores pelos personagens, inclusive os animais, que são apresentados um a um à medida que o texto avança. A linguagem monológica ascética funciona para revelar os dramas reais da família diante da inacessibilidade, da estrutura de miséria em que vivem, da falta de comunicação que os impede de avançarem.

    O que intimida e encanta neste romance - mais do que a sua estrutura estilística - é a capacidade do autor em expressar, através de cada personagem, o problema da comunicação e a solidão. O cuidado em focalizar cada um dos personagens isoladamente indica a solidão e o primitivismo vivido pelo grupo, como resultado dos toscos e ineficientes meios de sociabilidade a que tiveram acesso. Assim, apesar de partilharem misérias, afeições e espaços comuns, os personagens vivem entregues ao seu próprio abandono, já que não conseguem articular mais do que rudes palavras, exclamações, insultos ou interjeições.

    É enfatizando o aspecto da precariedade da comunicação verbal que o autor dá a medida da barreira que isola os personagens. Tem lugar, dentro do romance, um corpo a corpo dramático dos personagens que precisam de se exprimir para o atendimento de suas necessidades básicas, e as palavras que, como entidades autônomas, se transformam em verdadeiros obstáculos com sentidos míticos.

    Ao mesmo tempo demonstra de maneira invulgar que, apesar do primitivismo em que vivem e para onde retornam a cada caminhada, estas personagens possuem as mesmas emoções, sentimentos e sensibilidades que os chamados homens evoluídos.

    Trabalha, por isso, a linguagem a dois níveis. No nível externo, as palavras não passam de tentativas inacabadas de diálogo, enquanto no nível interno os diálogos evoluem sem erros lingüísticos, com coerência e uma extrema capacidade de visualização do mundo e dos homens.

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GRACILIANO RAMOS
VIDAS SECAS (1938)


   
Vidas Secas é a história de uma família de retirantes, que paradoxalmente não chega a constituir propriamente uma história. A dura andança, sob a implacabilidade da seca, de certa forma justifica a inutilidade da comunicação entre os membros da família, o fato de os filhos não apresentarem nome, as dificuldades lingüísticas do pai, Fabiano, a inquietação constante. E também justifica o sacrifício do papagaio, que tinha acompanhado a família, e que veio a se transformar em alimento providencial. Como se não bastassem tais infortúnios, Fabiano vem a ser preso pelo "soldado amarelo", símbolo do autoritarismo local. Ao contrário de Fabiano, que se mostra matuto em tudo, sua mulher, Sinhá Vitória, apresenta sinais de ter vindo de um meio social menos duro. Baleia, a cachorra, consegue sentir e reagir com inteligência superior à média dos animais. Sua "humanização" progressiva acompanha a também progressiva "animalização" dos membros da família. Fabiano tem de sacrificar a cachorra, por suspeitar que ela estivesse padecendo de raiva. Embora se revolte contra as contas do patrão, Fabiano tem de aceitá-las, para não perder o emprego. Seu reencontro com o soldado amarelo, depois, em plena caatinga, faz-lhe reconhecer sua própria superioridade. Acaba perdoando, ensinando ao soldado o caminho de volta. Mas a temida seca enfim está chegando. As árvores se enchem de aves de arribação. Fabiano recomeça a analisar sua vida. Quem lhe dá animo é Sinhá Vitória. Os retirantes deixam a casa da fazenda e retomam o caminho de sempre. No pensamento de Fabiano brilha uma certa esperança, materializada pelas promessas de chegar ao sul do país. Mas a perspectiva que vem do narrador é a da contínua andança, sem definição e sem destino certo.
A secura é a dominante do livro: secas são não só as vidas das personagens e as paisagens que atravessam, mas também a linguagem do livro. As frases são curtas, lacônicas, o vocabulário é mínimo, a própria montagem da narrativa é esquelética, feita de quadros que se reduzem a si mesmos, sem se articular no desenho mais amplo de uma história, pois esta também parece faltar àqueles magros retirantes.

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Vidas Secas

 


   
Em nenhum outro romance Graciliano é mais humano e presente do que em Vidas Secas. Aproveita-se da narração em terceira pessoa para marcar o plano literário e não deixar dúvidas quanto à sua presença, ao descrever a vida de uma família de sertanejos fugitivos da seca, sem destino e sem outras perspectivas para além da sobrevivência e do eterno retorno. Às vezes, ele aparece do lado de fora dos personagens comentando a vida de Fabiano, de Sinhá Vitória, dos meninos e da cachorra Baleia, às vezes aparece confundindo-se com os pensamentos de um ou de outro personagem e às vezes como a consciência coletiva do grupo.

    Esse comando de ação perpassa todo o romance, retalhado em capítulos interdependentes entre si, mas autônomos do ponto de vista literário. O livro não se compõe de uma narrativa só, mas de várias narrativas nucleares seccionadas, em que os fatos terminam em si, não surgindo para ocupar lugar numa cadeia de acontecimentos com um princípio, um meio e um fim. Os dramas focalizados não evoluem em qualquer sentido, mas acontecem diante do leitor e se exibem em sua inteireza, dando a idéia de um cenário completo.

    É aí que ele dissolve qualquer excesso retórico em favor de uma linguagem seca, áspera e poética, quase toda produzida em monólogos interiores pelos personagens, inclusive os animais, que são apresentados um a um à medida que o texto avança. A linguagem monológica ascética funciona para revelar os dramas reais da família diante da inacessibilidade, da estrutura de miséria em que vivem, da falta de comunicação que os impede de avançarem.

    O que intimida e encanta neste romance - mais do que a sua estrutura estilística - é a capacidade do autor em expressar, através de cada personagem, o problema da comunicação e a solidão. O cuidado em focalizar cada um dos personagens isoladamente indica a solidão e o primitivismo vivido pelo grupo, como resultado dos toscos e ineficientes meios de sociabilidade a que tiveram acesso. Assim, apesar de partilharem misérias, afeições e espaços comuns, os personagens vivem entregues ao seu próprio abandono, já que não conseguem articular mais do que rudes palavras, exclamações, insultos ou interjeições.

    É enfatizando o aspecto da precariedade da comunicação verbal que o autor dá a medida da barreira que isola os personagens. Tem lugar, dentro do romance, um corpo a corpo dramático dos personagens que precisam de se exprimir para o atendimento de suas necessidades básicas, e as palavras que, como entidades autônomas, se transformam em verdadeiros obstáculos com sentidos míticos.

    Ao mesmo tempo demonstra de maneira invulgar que, apesar do primitivismo em que vivem e para onde retornam a cada caminhada, estas personagens possuem as mesmas emoções, sentimentos e sensibilidades que os chamados homens evoluídos.

    Trabalha, por isso, a linguagem a dois níveis. No nível externo, as palavras não passam de tentativas inacabadas de diálogo, enquanto no nível interno os diálogos evoluem sem erros lingüísticos, com coerência e uma extrema capacidade de visualização do mundo e dos homens.

 

 

 

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