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A Expansão
Napoleônica, o Bloqueio Continental e a Fuga da Família Real para o Brasil 1808 - Laurentino Gomes (A Fuga da Família Real para o Brasil) Napoleão
e o Império – Napoleão chegou ao poder através do
golpe de 18 Brumário, em 1799, que pôs fim à Revolução Francesa ao dissolver o
Diretório. A partir disso, foi concentrando o poder em suas mãos até que, em
1804, proclamou-se imperador da França. O
Bloqueio Continental – Com a Revolução Francesa
havia se iniciado uma longa luta entre a França revolucionária e os países
absolutistas que se sentiam ameaçados pelo seu exemplo. Com a ascensão de
Napoleão, essa luta ganhou um novo impulso. Em 1805, Inglaterra, Prússia,
Áustria e Rússia uniram-se pela terceira vez contra a França, coligação que
Napoleão desfez com relativa facilidade, mas não conseguiu vencer a Inglaterra.
Esta, graças à sua posição insular e sua poderosa marinha, manteve-se intocável.
Para fazer face ao poderio britânico, Napoleão decretou o Bloqueio Continental
em 1806, fechando o continente europeu à Inglaterra. Ele procurou, assim, criar
toda sorte de dificuldades econômicas, a fim de desorganizar a economia inglesa.
Todavia, o bloqueio contrariava também os poderosos
interesses econômicos do continente e, logo de início, encontrou fortes
oposições. Outra fragilidade do bloqueio encontrava-se no fraco desempenho das
indústrias francesas, incapazes de ocupar o grande vazio deixado pelo súbito
corte do fornecimento britânico. Além disso, os produtos coloniais, cuja
distribuição era controlada pela Inglaterra, teriam de encontrar substitutos
adequados. Portugal
e o bloqueio – A economia portuguesa havia muito
se encontrava subordinada à inglesa. Daí a relutância de Portugal em aderir
incondicionalmente ao bloqueio. Napoleão resolveu o impasse ordenando a invasão
do pequeno reino ibérico. Sem chances de resistir ao ataque, a família real
transferiu-se para o Brasil em 1808, sob proteção inglesa. Começou então, no
Brasil, o processo que iria desembocar, finalmente, na sua emancipação política.
A Transferência da Corte para o BrasilO duplo
aspecto das guerras napoleônicas – As guerras
napoleônicas (1805-1815) apresentaram dois aspectos importantes: de um lado, a
luta contra as nações absolutistas do continente europeu e, de outro, contra a
Inglaterra, por força das disputas econômicas entre essas duas nações burguesas.
As principais nações continentais - Áustria, Prússia e Rússia
- foram subjugadas por Napoleão a partir de 1806, em razão da sua imbatível
força terrestre. Entretanto, foi no confronto com a Inglaterra que as
dificuldades tomaram forma, paulatinamente, até asfixiarem por completo as
iniciativas napoleônicas.
Em 1806, apesar de o domínio continental estar aparentemente
assegurado, a Inglaterra resistiu a Napoleão, favorecida pela sua posição
insular e sua supremacia naval, sobretudo depois da batalha de Trafalgar (1805),
em que a França foi privada de sua marinha de guerra.
Strangford e a política britânica para Portugal –
Sem poder responder negativa ou positivamente ao ultimatum francês por ocasião
do Bloqueio Continental, a situação de Portugal refletia com toda a clareza a
impossibilidade de manter o status quo *. Pressionada por Napoleão, mas incapaz
de lhe opor resistência, e também sem poder prescindir da aliança britânica, a
Corte portuguesa estava hesitante. Qualquer opção significaria, no mínimo, o
desmoronamento do sistema colonial ou do que dele ainda restava. A própria
soberania de Portugal encontrava-se ameaçada, sem que fosse possível vislumbrar
uma solução aceitável. Nesse contexto, destacou-se o papel desempenhado por
Strangford, que, como representante diplomático inglês, soube impor, sem
vacilação, o ponto de vista da Coroa britânica.
Para a Corte de Lisboa colocou-se a seguinte situação:
permanecer em Portugal e sucumbir ao domínio napoleônico ou retirar-se para o
Brasil. Esta última foi a solução defendida pela Inglaterra.
A fuga da
Corte para o Brasil – Indeciso, o príncipe regente
D. João' adiou o quanto pôde a solução, pois qualquer alternativa era danosa à
monarquia.
Afinal, a iminente invasão francesa tornou inadiável o
desfecho. A fuga da Corte para o Rio de janeiro, decidida na última hora,
trouxe, não obstante, duas importantes conseqüências para o Brasil: a ruptura
colonial e o seu ingresso na esfera de domínio da Inglaterra.
Chegando ao Brasil, D. João estabeleceu a Corte no Rio de
janeiro e em 1808 decretou a abertura dos portos às nações amigas, pondo fim, na
prática, ao exclusivo metropolitano que até então restringia drasticamente o
comércio do Brasil.
A Penetração Britânica no Brasil Breve
histórico – Desde a sua formação, Portugal esteve
sob permanente ameaça de anexação por parte da Espanha, finalmente concretizada
com a União Ibérica em 1580. A conseqüência imediata dessa união foi, como
vimos, a ocupação holandesa a partir de 1630. Motivado por tais experiências, Portugal adotou sempre uma cautelosa política de neutralidade e buscou apoio, quando necessário, na Inglaterra. Logo após a Restauração (1640), Portugal foi obrigado a fazer concessões comerciais aos ingleses em troca de apoio contra a Espanha e a Holanda. Os tratados de 1641, 1654 e 1661, com a Inglaterra, foram produtos dessa concessão que, afinal, acabou resultando na crescente dependência de Portugal. Através desses tratados foi aberto à burguesia inglesa o mercado colonial português, na condição de nação mais favorecida.
O mais importante tratado, pelo seu caráter lesivo a
Portugal, foi o de Methuen, assinado em 1703, em pleno início da mineração no
Brasil. O tratado possuía apenas dois artigos: Artigo 1
°. Sua Sagrada Majestade El Rei de Portugal promete, tanto em seu próprio Nome,
como no de Seus Sucessores, admitir para sempre de aqui em diante, no Reino de
Portugal, os panos de lã e mais fábricas de lanifício de Inglaterra, como era
costume até o tempo em que foram proibidas pelas leis, não obstante qualquer
condição em contrário. Artigo
2º. - E estipulado que Sua Sagrada e Real Majestade Britânica, em Seu Próprio
Nome, e no de Seus Sucessores, será obrigada para sempre, de aqui em diante, de
admitir na Grã Bretanha os vinhos do produto de Portugal, de sorte que em tempo
algum (haja paz ou guerra entre os Reinos de Inglaterra e de França) não se
poderá exigir direitos de Alfândega nestes vinhos, ou debaixo de qualquer outro
título direta ou indiretamente, ou sejam transportados para Inglaterra em
pipas, tonéis ou qualquer outra vasilha que seja, mais que o que se costuma
pedir para igual quantidade ou medida de vinho de França, diminuindo ou abatendo
terça parte do direito de costume. O Tratado de Methuen estipulou, em síntese, a compra do vinho português em troca de tecidos ingleses. Esse acordo bastante simples foi, entretanto, altamente nocivo para Portugal porque, em primeiro lugar, importava-se mais tecido do que se exportava vinho, tanto em termos de quantidade como em valor; em segundo, as manufaturas portuguesas foram eliminadas pela concorrência inglesa. Por último, dado o desequilíbrio do comércio com a Inglaterra, a diferença foi paga pelo ouro brasileiro. Desse modo, o Tratado de Methuen abriu um importante canal para a transferência da riqueza produzida no Brasil para a Inglaterra. Os tratados de 1810
– Com tempo, a dependência de Portugal se aprofundou e essa foi a razão por que
D. João finalmente se submeteu às exigências inglesas e se transferiu para o
Brasil. Em 1810, quando a Corte já se encontrava no Rio de Janeiro, a Inglaterra
fez D. João assinar três tratados que a favorecia. Um deles era o de Amizade e
Aliança o outro de Comércio e Navegação e um último que veio regulamentar as
relações postais entre os dois reinos.
Do conjunto dos dispositivos, destacavamse alguns artigos
que feriam frontalmente os interesses econômicos de Portugal e do Brasil, além
da humilhação política que outros itens impuseram à soberania lusitana.
Em um artigo do segundo tratado, por exemplo, a Inglaterra
exigiu o direito de extraterritorialidade. Isso significava que os súditos
ingleses radicados em domínios portugueses não se submeteriam às leis
portuguesas. Assim; esses súditos elegeriam seus próprios juízes, que os
julgariam segundo as leis inglesas.
E os portugueses residentes em domínios britânicos gozariam
dos mesmos direitos? Não. O príncipe regente aceitou, resignadamente, a
"reconhecida eqüidade da jurisprudência britânica" e a "singular excelência da
sua Constituição”. Inversamente, pode-se dizer que a Inglaterra não reconheceu
nenhuma eqüidade na jurisprudência lusitana...
Outro aspecto escandaloso dos tratados foi o direito
assegurado à Inglaterra de colocar suas mercadorias no Brasil mediante a taxa de
15% ad valorem *, enquanto os produtos portugueses pagavam 16%, isto é, 1 % a
mais que os ingleses! Os demais países estavam submetidos à taxação de 24% em
nossas alfândegas.
Em
síntese: A extrema brutalidade dos tratados
impostos pela Inglaterra não foi obra do acaso. Ela se explica pela pesada
pressão econômica que o bloqueio napoleônico exerceu sobre a Inglaterra. De
fato, as guerras napoleônicas, e suas conseqüências para a economia inglesa,
tornaram premente a necessidade de abrir novos mercados, sob pena de a
Inglaterra sucumbir às pressões da conjuntura. A quebra do pacto colonial era
vital, pois as mercadorias estavam se acumulando e precisavam ser escoadas de
algum modo, o que tornava a exclusão inglesa do mercado americano algo
impensável. Ora, a relativa facilidade com que a Inglaterra impôs seus
interesses ao Brasil permitiu a maciça exportação de seus produtos, inundando o
nosso mercado. Mais do que isso, a presença inglesa trouxe modificações radicais
na posição do Brasil dentro do mercado internacional: saímos da órbita do
colonialismo mercantilista português para ingressar na dependência do
capitalismo industrial inglês.
A Inglaterra e as Novas Formas de Dominação
Transformações do Rio de Janeiro – Após a abertura
dos portos, pela primeira vez o Brasil pôde manter contatos comerciais diretos e
regulares com o exterior, sem a intermediação de Portugal. O Rio de Janeiro
transformou-se então num "empório do Atlântico Sul", nas palavras do
historiador Nelson Werneck Sodré. Ali chegavam mercadorias de diversas
procedências e dali eram exportados os produtos brasileiros. As formas
da nova dependência – Com o fim do exclusivo
metropolitano, uma nova forma de dependência se estabeleceu, manifestando-se no
déficit permanente da balança comercial externa. Essa situação decorreu da
franquia dos portos, que alterou as tarifas alfandegárias de 48%, na época do
exclusivo, para 24% com D. João, a fim de favorecer contatos comerciais
diversificados. As trocas comerciais, todavia, não favoreceram o Brasil, e
diversas razões podem ser alinhadas para explicar essa situação.
Até a ruptura colonial, nosso comércio era, pelo menos,
equilibrado, embora a produção fosse prejudicada pelas excessivas taxas e
restrições em favor da metrópole. Em compensação, Portugal representava um
mercado garantido para as exportações brasileiras.
A abertura dos portos alterou profundamente os hábitos de
consumo no Brasil, com a chegada de grande quantidade de mercadorias, sobretudo
de origem inglesa. Um viajante inglês, John Mawe, assim descreveu o Rio dessa
época:
Enquanto isso, as exportações brasileiras não cresciam na
mesma proporção, nem tão rapidamente quanto era necessário para fazer face às
importações. A Inglaterra não adquiria produtos brasileiros, pois suas colônias
já os produziam. Só entravam no mercado britânico aquelas mercadorias
consideradas úteis às indústrias têxteis, como o algodão e o pau-brasil. De
Portugal, a Inglaterra adquiria o vinho e o azeite. Com isso, a balança
comercial do Brasil tornou-se deficitária. Esse déficit permanente precisava ser saldado de alguma forma. A solução dependia do fluxo de capital estrangeiro, que aqui chegava na forma de empréstimo público. Mas os altos juros cobrados apenas agravavam a situação e, por volta de 1850, representavam 40% das finanças públicas.
Bibliografia: História do Brasil - Luiz Koshiba - Editora Atual História do Brasil - Bóris Fausto - EDUSP Saiba mais: Clique aqui para ler a resenha de "1808", de Laurentino Gomes 1808 - Laurentino Gomes (A Fuga da Família Real para o Brasil)
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