Introdução à Mitologia Grega: Deuses e Contos de Origens

Para muitos povos, a religião, através dos valores transmitidos por suas crenças e das práticas que realizam em seus rituais, organiza a vida da sociedade. E assim era entre os gregos.

Na sociedade contemporânea, uma mesma religião muitas vezes não atinge um povo inteiro, mas somente parte dele. Assim, num mesmo país é possível haver várias comunidades religiosas distintas, cada uma com seu sistema de crenças e ritos. Somente numa cidade do Brasil, digamos, São Paulo, por exemplo, podemos encontrar católicos, protestantes de orientações diversas, testemunhas-de-jeová, seguidores da Igreja Universal, Seguidores do Candomblé, da Umbanda, espíritas kardecistas, etc. Todas essas comunidades freqüentemente fazem parte de uma rede maior, muitas vezes com uma sede central em algum lugar específico. Por exemplo, os católicos romanos de todas as cidades onde eles existem constituem uma comunidade mundial com sede em Roma.

Na Grécia Antiga, as várias cidades-estados – cada qual com um sistema diferente de encaminhamento político – tinham precisamente uma única fé a uní-los; com as mesmas crenças e mesmos rituais eram parte de uma mesma comunidade religiosa: tinham as mesmas crenças e rituais, tanto que se faziam representar em santuários comuns, como em Delfos e Olímpia.

Em Delfos a voz de Apolo, filho de Zeus se fazia ouvir de maneira sibilina através de um oráculo proferido por uma sacerdotiza especial. Raramente se tomavam decisões relevantes ao povo de uma cidade-estado grego sem antes consultar o Oráculo em Delfos. Em Olímpia tinham lugar um festival religioso e atlético: as competições em homenagem a Zeus, Rei dos Deuses do Olimpo. A primeira Olimpíada da Grécia Antiga ocorreu na cidade de Olímpia no ano 776 Antes da Nossa Era, repetindo-se a cada quatro anos e sendo a referência do calendário grego; dizia-se coisas como “meu filho se casou no 3º ano da 6ª Olímpiada…”

Entre os gregos, a tradição religiosa era transmitida oralmente por poetas como Homero e Hesíodo, que viveram entre os séculos IX a.C. e VIII a.C., inspirados por divindades ligadas à música e à poesia, as Musas. Seus relatos foram retomados por dramaturgos dos séculos V a.C. e IV a.C. Numa cultura pré-literária como a grega antiga, o conceito de KLEOS (Glória Imorredoura, numa tradução literal, que envolve ainda outros conceitos éticos elevados como Honra, Bravura, Honestidade, etc.) tem óbvia relevância: os cadáveres eram cremados e o que restava dos homens era o que seus pósteros diziam acerca de seus feitos.

 

As divindades gregas

Diferentemente da religião cristã, onde a “crença” é fator crucial, a religião na Grécia Clássica não envolve essa dimensão: os deuses representam, de maneira antropomórfica, Forças da Natureza e Desejos Humanos tão incontroláveis quanto incontestáveis. Por exemplo, Afrodite, que nasceu da fecundação dos testículos castrados a Cronos com o Mar, era a manifestação do Desejo Sexual (as tentativas de transformá-la em “deusa do amor” é um desenvolvimento bastante recente e absolutamente desconhecido aos gregos). Se você perguntasse a um grego se ele “acredita” em Afrodite ele não compreenderia a questão! Afrodite é Desejo Sexual, Tesão. “Você acredita em Tesão”? Não faz sentido. Existe e pronto. O fato de ter uma história de antropomorfismo em torno não remove o cerne da questão.

Outro exemplo: quando Zeus castrou seu pai Cronos e arremessou seus testículos ao mar libertou os irmãos que o Titã havia devorado criando a Tríplice Divisão: Zeus governa o Olimpo, Poseidon governa os mares e Hades governa o mundo dos mortos. Poseidon é a representação antropomórfica do Mar e dos Terremotos. Não se “acredita” em terremotos ou tempestades marinhas, elas existem, ponto final.

Uma característica sui generis é o fato de os deuses gregos, não terem as características do deus judaico-cristão, ou seja: os deuses gregos têm amplos poderes, podem transformar-se a seu talante, transportar-se instanteneamente a qualquer lugar e certamente têm amplo conhecimento; não são, contudo onipotentes nem onipresentes e, acima de tudo, não se importam tanto com o destino dos seres humanos que lhes são úteis, só isso. Os deuses olímpicos parece estarem sempre jogando xadrez e utilizam os seres humanos como as pedras do tabuleiro. Não há “bondade” ou “maldade” absoluta nos deuses Olímpicos.

Inevitável o intercâmbio tanto comercial quanto cultural entre as culturas humanas no entorno do Mediterrâneo, portanto não é rara a ocorrência de referências similares a outras divindades e heróis da Mesopotâmia, do Egito e mesmo da Índia, de alguma forma presentes no panteão dos deuses gregos.

 

Mitos de Origem

Segundo Hesíodo, em Teogonia, no início era o Caos (que, em grego tem um significado aproximado de “tudo quanto existe”, não de “desordem” que veio a adotar mais tarde). Do Caos proveio a Terra (Géia), o mundo dos mortos (Tártaro) e o Desejo Sexual (Eros); este último, séculos depois, já quando os Romanos haviam adotado e adaptado muito da mitologia grega, se torna filho de Afrodite e, em versões medievais aparece em pinturas como um anjinho cego a arremessar flexas… Os mitos não são construções fixas e paralizadas no tempo e no espaço, evoluem, transformam-se, adaptam-se…

Urano (o Céu) se casa com Géia (a Terra) e recebe um oráculo dizendo que um de seus filhos o destronaria. Para evitar que isso aconteça, pressiona Géia a tal ponto que não há espaço para o desenvolvimento de seus filhos que nascem e ficam presos no ventre de sua mãe. Não havia distância entre o Céu e a Terra… Géia fabrica uma foice e instrui seu filho caçula, Cronos, a castrar seu pai que, como todos os deuses, tem a característica definidora e diferenciadora dos humanos pelo fato de ser IMORTAL. Urano – o Céu – afasta-se para cima (sendo assim mantido nos ombros de Atlas, um de seus filhos) dando espaço a que os outros filhos de Géia se libertem também. Dentre estes, Cronos, que liberta os Titãs, assume a sua liderança e se casa com sua irmã Rhea recebendo o mesmo oráculo (que seria destronado por um de seus filhos). Cronos decide aguardar o final da gestação de cada filho gerado em Rhea e o engole assim que nasce.

Cronos devorando um de seus filhos recém-nascidos em tela de Francisco Goya Y Lucientes, 1823 – Cabe ressaltar que, segundo Hesíodo, Cronos engolia inteiros seus filhos e não os mastigava como dá a entender a tela do gênio Espanhol

 

Rhea, fatigada de dar a luz tantos filhos e ter de os dar a devorar ao pai Cronos, após o nascimento de Zeus entrega a ele uma pedra embrulhada em roupas de bebê, que Cronos engole sem perceber a troca. Enquanto isso, numa ilha remota, Zeus cresce. Chegando à idade adulta cumpre a profecia, castra seu pai e, ainda segundo Hesíodo, os testículos de Cronos fecundam o mar e assim nasce a mais bela das deusas, a deusa do Desejo Sexual, Afrodite.

 

O Nascimento de Afrodite, em tela de Sandro Boticelli de 1486

Como não poderia deixar de ser, Zeus recebe o mesmo oráculo que seus ancestrais: um de seus filhos o iria destronar. Sabedor de que seria um de seus filhos com sua irmã Metis (deusa do artesanato e da sabedoria) decide-se por engoli-la a fim de que ela preste a ele bons conselhos e assim evita o mesmo destino de seus ancestrais permanecendo eternamente rei dos deuses do Olimpo – os gregos acreditavam que os pensamentos ocorriam no plexo solar, não no cérebro como cremos hoje – Metis já estava grávida de Pallas-Athena e esta é deslocada até a cabeça de Zeus que, enfrentando tremenda dor localizada, convoca Hefesto (o ferreiro dos deuses) a que use um machado para abrir-lhe a cabeça e aliviar a pressão: da cabeça de Zeus, completa e vestida de plena armadura para a Guerra, nasce Athena, a Deusa da Sabedoria.

 

Como se disse acima, Zeus liberta seus irmãos do ventre de sua mãe: Héstia, deusa do coração, de quem não restam muitas referências mas parece ter sido objeto de culto em vastas regiões da Grécia durante o Período Homérico, Poseidon que se torna Senhor dos Mares e Terremotos, Hades, que se torna senhor dos mortos, Hera, que se torna a esposa permanente de Zeus e Senhora do Casamento, Demeter, que se torna Senhora das Plantações e Colheitas, Leto, de quem não nos restou outra informação exceto haver sido mãe de Apolo e de Artemis. Com Zeus, Hera concebe Ares, Deus da Guerra e Hebe, deusa da beleza e eterna juventude;. para se vingar das inúmeras infidelidades de Zeus, Hera gera sozinha Hefesto que diziam ser tão feio que foi arremessado do monte Olimpo. Torna-se o Ferreiro dos Deuses. A estes, somam-se uma série de divindades menores, semi-deuses e Heróis que passamos a descrever rapidamente (caso o eventual leitor se interesse por um aprofundamento, por favor entre em contato através do Facebook).

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