Podemos voltar aos Bons Tempos – quem sabe mesmo a um patamar ainda mais elevado?

“Toda unanimidade é burra” – Nelson Rodrigues

Quem tem 40 anos ou mais recorda-se do tempo em que, no Brasil, com um emprego era possível manter confortavelmente a Família (Esposa e dois ou mais filhos), eventualmente comprar casa própria, automóvel e mesmo poupar recursos. Eram tempos em que o Ensino Público era tão superior em qualidade que somente maus estudantes eram ejetados – via de regra pelos próprios pais envergonhados com o triste desempenho de seus rebentos – para as raríssimas escolas privadas existentes e então conhecidas como “PPP” – “Papai Pagou, Passou”. Era uma vergonha ao aluno não ter competência para acompanhar a qualidade do Ensino Público! Tempos em que o atendimento médico na rede pública mantinha ótima qualidade! A figura dos “Planos de Saúde” inexistia. Raros médicos mantinham consultórios particulares nos quais atendiam seus pacientes a preços bem em conta para aquele período. Pagava-se, em impostos diversos, menos de 10% da renda familiar ao ano e estes mantinham serviços públicos muito bons. Ao término de 30 anos de trabalho, aposentava-se com recursos suficientes a manter o mesmo padrão de vida e mesmo viajar, “curtir a vida” com a poupança feita. Sim… Eram tempos em que a poupança era estimulada, rendia bem e propiciava maiores realizações.

Em todos os bairros, de todas as cidades, havia parquinhos ou, no mínimo, pracinhas com brinquedos para a criançada. Praças ajardinadas, floridas, bem cuidadas pelos funcionários das prefeituras… A maioria dos municípios mantinha músicos que tocavam nos coretos durante finais-de-semana… As ruas, estradas e avenidas eram mantidas pelo poder público com o fruto dos impostos pagos pelo cidadão. Limpeza urbana impecável… A beleza estava por toda a parte: ruas asfaltadas, saneamento primoroso, campanhas de vacinação erradicaram diversas doenças desagradáveis. Viajava-se de automóvel centenas de quilômetros vendo-se a beleza da Estrada, cidades aqui e ali e, ao lado das Rodovias aquele verde extraordinário em belíssimas e bem cuidadas plantações de Trigo, Arroz, Milho, Feijão, Batata, Cebola… Aqui e ali árvores floridas (Flamboyants, Ipês, Magnólias, Quaresmeiras, Acácias…).

Mãe em Tempo Integral – Profissão Extinta…

A coisa não foi repentina. Não surgiu como um raio em céu azul. Foi um processo gradual, cruel, doloroso, dificilmente perceptível no cotidiano: com o aviltamento salarial do “Chefe de Família”, as Esposas passaram a precisar trabalhar também a fim de complementar a renda familiar e, assim, surgiu a inevitável e justa luta feminina pela igualdade de salários e condições de trabalho. Surgiram as creches (inicialmente beneficentes, a seguir municipais, e, finalmente privadas) onde as crianças são cuidadas como na linha de produção de uma fábrica, na melhor das hipóteses. Depois que o salário de seus cuidadores foi também esmagado, sequer isso têm… Sem o carinho e a atenção materna, o jovem vai crescendo rebelde e chega à Escola sem a Educação Básica Elementar: “Bom Dia”, “Boa Tarde”, “Por Favor”, “Obrigado”, “O Sr.”, “A Sra.” e outras expressões de mera polidez, respeito e cordialidade fundamental foram desaparecendo até do vernáculo infanto-juvenil… Ao final de sua falta de formação elementar, o jovem se vê, NA MELHOR DAS HIPÓTESES, face à alternativa: estudar ou trabalhar. Seu Futuro periclita a tal ponto que atualmente as Futuras Gerações sequer podem ousar sonhar ter o estilo de vida que tiveram seus pais ou avós…

Ah, e a Segurança… Como era gostoso brincar na pracinha perto de casa ou no bairro próximo! Hoje não há brinquedos nas praças, os parques de diversão que existem estão privatizados e se tornou comum o noticiário de violências as mais diversas; desde o arremesso do jovem no crime por falta de outra alternativa existencial, até estupros, sequestros, assassinatos… Recém saídos da infância e despreparados, geram novos rebentos que, não raro terminam em covas rasas, latas de lixo, banheiros de hospitais… O que era raríssimo, escandaloso mesmo, há menos de meio século, foi se tornando corriqueiro…

Atualmente, quem tem somente um emprego não consegue sequer manter a si mesmo adequadamente. Se deseja constituir família, o casal precisa de outras fontes de renda, batalhar – e muito – por mais um ou dois empregos extras. Meramente para chegar próximo àquele padrão de vida conquistado pelos Brasileiros há pouco menos de meio século e esfacelado pelos Mercados, pela Globalização (*)…

Com o passar dos anos, o quadro se inverteu a tal ponto que as escolas de má qualidade da rede privada ditam a norma de funcionamento da rede pública; hoje em dia, esta última detém o rótulo de “ainda pior qualidade educacional” que aquela da privada…

Os impostos foram sendo majorados a tal ponto que atualmente pagamos cerca de metade de tudo o que conseguimos com o nosso trabalho aos governos municipais, estaduais e federal. Em troca, os serviços públicos tiveram seu padrão destruído, obrigando a todos a privar-se ainda mais do fruto pecuniário de seu trabalho para ter algo de Educação, Atendimento Médico, Lazer…

          Esta é uma primeira aproximação deste tema. Cabe a nós estudarmos um pouco mais como se deu todo este processo. POSTULAMOS que a Corrupção é CONSEQUÊNCIA dos descaminhos em que nossa Nação foi arremessada gradualmente; estamos persuadidos de serem “Os Mercados”, de alguma forma guindados ao Comando Supremo de Todo o Ordenamento Social, os grandes culpados por toda esta destruição.

          Nada temos contra “Os Mercados” em si. De que outra forma conseguiríamos os bens situados em pontos distantes de onde residimos se não pudéssemos contar com mercadores dispostos a nos trazer aquilo de que precisamos onde moramos em troca de um lucro dentro do razoável?

          Por outro lado, aos poucos fomos lendo nos jornais – e de maneira crescente, repetitiva, hipnótica, FORJADORA DE CONSENSO – coisas como “Os Mercados” aplaudem (ou repudiam) esta ou aquela decisão Executiva, Legislativa ou Judiciária.

          Chega-se ao Século XXI com o convencimento formado, forjado ao longo de décadas: “o que é melhor para ‘Os Mercados’ é o melhor para a Nação”, destrutiva e destruidora falácia que vem esgarçando gradualmente a tecitura social de nossa Nação nas últimas décadas, a nosso juízo, em nossa opinião. Evidentemente, “Os Mercados” enriqueceram enormemente concentrando o fruto do trabalho alheio e distribuindo-o de maneira excêntrica entre seus aliados de ocasião, por vezes cooptados, por vezes eles mesmos mercadores: legisladores e gestores eleitos pela vontade popular. O fato de haver muitos deles presos e respondendo pelos crimes mais diversos contra a Ordem Econômica nos aponta um Norte para o aprofundamento da Pesquisa. Os aliados dos Mercadores, Comandantes Supremos de Todo o Ordenamento Social, hoje recebem polpudos salários, quer ministrando aulas (de Economia, Comércio Internacional, Mercado de Capitais, Propaganda e Marketing e similares) quer como agentes noticiosos ou comentaristas políticos, repetindo ad nauseam o mantra pró-Mercados. Contrários a essa onda – pouquíssima gente que ainda guarda alguma coragem e prefere a verdade, por mais amarga que seja – não têm as mesmas facilidades para a Pesquisa, mas esta precisa ir em frente caso almejemos TER UM FUTURO.

          O BEM ESTAR DA SOCIEDADE, DE CADA CIDADÃO, É MAIS IMPORTANTE QUE O BEM ESTAR DO MERCADO E ESTES SÃO INCOMPATÍVEIS. Estando este POSTULADO correto, o que estudaremos com vagar nos próximos textos que havemos de “cometer” ao limite de nossas habilidades, COMO REVERTER ESSE QUADRO? Como evitar que o Executivo, o Legislativo e o Judiciário sigam subordinando-se caninamente “Aos Mercados” uma vez partirem de premissa diametralmente oposta ao nosso Postulado?

          Não posso arvorar-me em “dono da verdade”, no mundo humano isto seria irracional.

          Presumindo-se que erro no Postulado aqui apresentado, ainda considero válida a questão: como é possível que haja um número incrivelmente maior de Brasileiros produzindo muito mais, trabalhando muito mais [a despeito da IMPOSIÇÃO DE ALTOS NÍVEIS DE DESEMPREGO A FIM DE MANTER BAIXOS SALÁRIOS ou, no jargão infeliz dos Tempos que correm, “para diminuir o custo-Brasil”] pagando muito mais impostos em troca de serviços públicos cada vez piores e vivendo de maneira bem mais precária que há meio século?

          O Combate à Corrupção é correto, Justo e Perfeito. Precisa mesmo seguir em frente e, presentemente, está espetacularmente bem encaminhada sob a liderança do Exmo. Sr. Ministro da Justiça, Dr. Sergio Moro, a quem prestamos nosso IRRESTRITO apoio. Ponderamos que, “só” a Corrupção – por volumosa que seja – na Sétima Maior Economia do Mundo é INSUFICIENTE para explicar a deterioração bestial no padrão de vida dos Brasileiros. Pode, contudo, ser a Porta de Entrada a que encontremos os Grandes Culpados pelo tremendo crime de Lesa-Pátria contra nós perpetrado de maneira tão gradual que levamos tanto tempo a perceber. E, mesmo hoje, poucos acordam ou almejam acordar…

Respeitosamente,

Lázaro Curvêlo Chaves – 07/02/2019

(*) A Globalização demonstra um Bifrontismo: há um aspecto positivo, no que tange aos Avanços Tecnológicos, em particular o aprimoramento em viagens e comunicações; e um aspecto bestialmente nefasto, no que tange à impossibilidade de manter lucros em moeda nacional (armadilha que muitos países optaram por evitar e, com isso, seguem crescendo) e violenta concentração do Poder Decisório “nos Mercados”, também evitado com sucesso em Nações que seguem crescendo felizes, como a Suécia, a Islândia, a Eslovênia…

Acordar é preciso. Com lirismo, naturalmente…

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